Elegante e segura de si, Christiane Torloni conduz sua carreira pelo caminho da leveza. Cheia de mulheres poderosas e peruas tresloucadas no currículo, a atriz encontra na doce Maria Inês, de "Alto Astral", um ponto de diversificação. "A complexidade da minha personagem reside na simplicidade. E depois de tantos anos fazendo papéis carregados de referências, ser menos é um exercício. É preciso ter entrega", analisa.
Filha dos atores Geraldo Matheus e Monah Delacy, antes mesmo de nascer, a atriz paulistana já estava nos palcos. A estreia profissional foi em 1975, sob o comando do exigente Walter Avancini na série "Caso Especial", da Globo. Ao longo dos anos, conquistou o teatro, virou protagonista de tramas como "A Gata Comeu" e "Corpo Santo", teve uma breve passagem pela extinta Manchete e retomou o contrato com a Globo com "Araponga", no início dos anos 1990.
A partir daí, se manteve como um nome forte dentro da emissora, com sucessos como "A Viagem" e "Mulheres Apaixonadas". "Eu sempre trabalhei muito. Pois é atuando que consigo compreender um pouco as adversidades da vida", entrega.
Hoje, aos quase imperceptíveis 58 anos, Torloni segue firme e forte. Seja defendendo a preservação da Amazônia, produzindo seus próprios espetáculos teatrais, fazendo apenas o que quer na tevê ou investindo na carreira de diretora. "Acho que ainda tenho muitas coisas a fazer. Não só como atriz, mas como realizadora. Esse sentimento me faz querer estar sempre em movimento", ressalta.

Sua carreira é recheada de peruas e mulheres problemáticas. A Maria Inês, de "Alto Astral", é mais centrada. Depois de tantos tipos fortes, é bom trabalhar em um papel mais calmo?
Acho que é um exercício. Quando você faz bem um tipo de papel é provável que você será chamada para reviver personagens semelhantes durante boa parte da carreira. É preciso ter coragem para mudar. E, em alguns casos, pedir para que essa alteração aconteça. Mulheres excêntricas e peruas sempre foram uma constante na minha carreira. Eu tive de cavar outros caminhos para não me repetir. Alguns autores já até sabem dessa minha vontade de fazer coisas diferentes e me chamam. Mas não é sempre que isso acontece. E, às vezes, no meio do processo, a personagem vem e te conquista. A Maria Inês, por exemplo, é um tipo delicioso.

Por quê?
Justamente por ela ser básica. Existe uma complexidade em soar menos, em falar mais baixo, em conter o gestual. Ainda mais sendo o trabalho que sucede "Fina Estampa" dentro da minha carreira. É muito mais fácil para a atriz vestir uma "armadura" e ir fazer uma cena. Os adereços ou composições de cada tipo facilitam bastante na busca pela personagem. No entanto, pode ser um caminho perigoso.

Em que sentido?
Como chegar ao coração do público se você, de repente, soar "fake" em cena? A Tereza Cristina foi muito complexa nesse sentido. Era uma personagem maravilhosa e acima do tom, bem ao gosto das vilãs do Aguinaldo (Silva). A responsabilidade de manter o nível no alto era enorme. Agora, em "Alto Astral", o tom é mais branco. Quando o diretor pede algo mais naturalista, é preciso ter muita autocrítica para reconhecer os pontos de exagero.

Em qual dos tipos você se sente mais à vontade?
Sou uma atriz de teatro. Sendo assim, gosto muito do processo de compor uma personagem. Pensar em tudo, cabelo, figurino, gestual. Mas adoro me sentir instigada e sair da minha área de conforto. A Maria Inês é maravilhosa nesse sentido. Não me sinto apoiada por qualquer artifício. Estou ligada apenas à minha intuição e ao texto.

Em "Alto Astral", você volta a atuar em uma trama de tom espiritualista exatos 20 anos depois do sucesso de "A Viagem". A temática da novela foi importante na hora de acertar sua participação?
É um tema que me encanta muito. Somos um povo muito espiritualista. A origem brasileira, com suas porções de africanos, europeus e indígenas, tende a se aproximar de vários mitos, são povos de muita espiritualidade. As novelas que tratam dessa questão sempre me despertam interesse. "Alto Astral" é um cristal de tão delicada. Muito antes de "A Viagem", eu já me interessava pelo assunto. A imersão para aquele trabalho só me fez admirar ainda mais.

"A Viagem", inclusive, faz sucesso atualmente ao ser reprisada pelo canal pago Viva. Você tem acompanhado algumas cenas?
Tenho trabalhado muito. Então, estou gravando essa reprise, pois não tinha a versão completa em casa. É muito bom rever essa novela.

Quais são suas principais lembranças da época de gravações?
São só boas lembranças. A novela tinha um elenco maravilhoso e muitos desses nomes já se foram. Tenho muita saudade do Cláudio Cavalcanti, por exemplo, um dos meus grandes parceiros de cena na trama. A Nair Bello era muito querida também. Além de sentir falta dos colegas de profissão, percebo em "A Viagem" uma receita muito bem azeitada de novela, do tipo infalível.

Qual?
Ela usa seus artifícios sem apelação. A temática espírita foi tratada de forma carinhosa e respeitosa. E ainda existe um belo melodrama por trás. Então, a novela é "redonda". Consegue chamar a atenção de uma gama variada de público e fala direto ao coração dessa audiência. É a quarta vez que vai ao ar. Isso não é para qualquer novela!

Em 2015, você completa 40 anos como atriz profissional e também de televisão. O que a leva a investir no veículo e aceitar novas personagens?
A televisão é um veículo do meu tempo. Quando estreei, sob o comando do Walter Avancini, nunca imaginei que pudesse chegar onde estou. É muito gratificante, não só pelo lado do entretenimento, mas de chegar na casa do público e por vezes consolar quem está do outro lado da tela. Acompanhar esse crescimento da televisão em relação não só ao lado tecnológico, mas de conteúdo, me deixa imensamente feliz. E há sempre novas histórias para contar ou velhas tramas para reciclar. Enquanto houver boas personagens para mim, certamente estarei feliz e trabalhando.

História própria
Entre os inúmeros trabalhos de Christiane Torloni na televisão, poucos deixaram marcas tão profundas na atriz como a sensual Maria Alonso, da minissérie "Amazônia, de Galvez a Chico Mendes", de 2007. A produção representa a aproximação dela com a causa da preservação da floresta. "Foi uma experiência transformadora. Educação Ambiental sempre foi um assunto muito pertinente para mim. E, ao entrar em contato com essa causa, vi que poderia colaborar", conta.
As vivências e pesquisas da atriz na região estão prestes a virar arte com o documentário "Amazônia: da Cidadania à Florestania, O Despertar", codirigido por Miguel Przewodowski. Também produzido pela atriz, o longa conta a história de uma rede de personagens, que, através da suas trajetórias, construíram uma malha de sustentabilidade local. "Quero muito contar essa história. É um retrato do Brasil do Século XX", resume a atriz, que usou seu know-how de produção teatral para lidar com a burocracia de se fazer cinema no Brasil. "Foi onde pude testar minha credibilidade no mercado. É muito bom ter vontade e realizar os projetos", destaca. (G.B.)

Entre amigos
Christiane Torloni encara seu trabalho em "Alto Astral" como um encontro entre amigos. O convite para a novela partiu de Silvio de Abreu e Jorge Fernando, dois velhos conhecidos da atriz. E na trama, ela atua ao lado de nomes como Edson Celulari e Sílvia Pfeifer.
O reencontro com Pfeifer, inclusive, fez Torloni viajar até "Torre de Babel", novela de 1998, onde o casal formado pelas duas atrizes acabou sendo rejeitado pelo público. Ela comemora que hoje a temática gay é tratada com mais naturalidade dentro das novelas. "A gente vive com uma provocação moral que é perigosa. Acho que tudo é um caminho e eles vão sendo abertos por passos anteriores. Tudo que está sendo feito hoje é porque outros já passaram antes. Fico feliz em ter feito parte daquele projeto", analisa. (G.B.)

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| Foto: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z
"A origem brasileira, com suas porções de africanos, europeus e indígenas, tende a se aproximar de vários mitos, são povos de muita espiritualidade. As novelas que tratam dessa questão sempre me despertam interesse", afirma a atriz
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