LEVE COMO UM ANJO
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de março de 2001
Mariana Meireles TV Press 
Caio Blat parece contaminado pelo jeito descontraído e infantil do querubim Rafael, que interpreta em Um Anjo Caiu do Céu. Ou vice-versa. Mesmo atolado de trabalho grava cerca de 20 cenas por dia e dirige os ensaios da peça Êxtase, de Walcyr Carrasco , ele não demonstra um pingo de estresse. O ator acaba de se mudar feliz e contente para a favela do Vidigal, na Zona Sul do Rio, para roteirizar a peça Êxtase para o cinema. Nem mesmo contracenar muito com um monstro sagrado como Tarcísio Meira tira a serenidade de Caio. E dá crédito por isso ao autor Antônio Calmon. Me sinto mais leve desde que comecei a gravar a novela. Todos comentam que pareço ter 17, 18 anos. Antes diziam que eu aparentava 22, 23, diverte-se o ator de 20 anos.
Caio admite que o fato de estar desfrutando de uma excelente fase na carreira é a primeira vez que faz um protagonista também o ajuda a encarar com tranquilidade e motivação a maratona diária. Estou fazendo um trabalho totalmente feliz. Espero que a minha carreira continue como está: maravilhosa, valoriza. E esse bom momento está sendo sentido na pele. Caio vem sendo abordado constantemente nas ruas desde a estréia da novela. Segundo ele, seus maiores fãs não são teenagers histéricas e sim crianças, o que o deixa mais realizado. Isso porque elas foram a sua maior fonte de inspiração para o personagem. Só na forma inocente com que as crianças descobrem o mundo é que eu podia fazer o Rafael, que passa por isso. Passei a observá-las o tempo todo, explica Caio.
O que você fez para ser protagonista com apenas 20 anos de idade?
Acho que tive sorte, aliada a dedicação e algum talento. Estou trabalhando há dez anos e fazem dois que estou na Globo. As coisas foram acontecendo, fui me preocupando em estudar e fazer um trabalho sério, em que as pessoas possam acreditar. Acho que é fruto da minha dedicação, com a qual conquistei esse espaço na Globo. Já tenho uma parceria dentro da casa que, com certeza, vai continuar por muito tempo.
A maior parte dos atores da sua geração é de garotos fortes e bonitos que fazem bailes de debutantes. Mas você, embora seja considerado galã, não se encaixa nesses rótulos. Qual é a diferença?
Uma grande parte de atores jovens começou na televisão e não passou pelo teatro, não sabe o que é a dedicação de um ator por um personagem. De repente, eles estavam na televisão e na capa de uma revista achando que a profissão se limita a isso. Não consigo pensar dessa forma. Aprendi que a única coisa que importa é me dedicar mais e mais à minha profissão e continuar estudando. Depois de Macário, espetáculo teatral que produzi, adaptei, dirigi e atuei, descobri que posso ter uma idéia com tudo o que a tevê me trouxe e realizá-la. Eu quero cada vez mais estar estudando para levar novas peças e filmes para as pessoas. A minha vontade é trabalhar. É a única coisa que eu penso no momento e isso me impede de me deixar levar por badalações.
Você não acha que é um exagero mudar-se para a favela do Vidigal por causa da adaptação de Êxtase para o cinema?
Não porque gosto de me entregar a fundo aos meus projetos. Vai ser mais fácil para encontrar locações para o filme e desenvolver o roteiro. Lá vou estar mais perto do pessoal do grupo Nós do Morro, que me dá consultoria sobre a questão das drogas. Também vou poder fazer entrevistas e pesquisas com os moradores. Acredito que vou fazer um trabalho melhor morando lá e só vou sair quando a casa que estou construindo no Itanhangá, na Zona Oeste do Rio, ficar pronta, o que só deve acontecer dentro de um ano.
Qual o peso de ser protagonista da novela e ao mesmo tempo contracenar com Tarcísio Meira?
É uma responsabilidade grande, mas o texto faz com que o meu personagem seja responsável pelo dele e vice-versa, não tem diferença. Com dois meses de novela no ar, a minha sensação é muito boa. Não sinto o peso de ser protagonista, trabalhar muito ou estar com o Tarcisão, porque todas as cenas são leves. O trabalho em vez de cansar, descansa. Contracenar com o Tarcísio não está sendo difícil, mas não vou dizer que não fiquei inseguro. Acho que a insegurança é inerente ao ator que está iniciando um trabalho. Ela move o ator a pesquisar mais. O ator que acha que está seguro de si, estaciona, pára de evoluir. Mas o Tarcísio logo de cara quebrou qualquer tipo de tensão. A gente se conheceu na viagem para Praga, na República Theca, onde os primeiros capítulos da novela foram gravados. Logo no primeiro dia, conversamos muito e vi que não ia ter esse tipo de preocupação. Ficamos amigos. Quando ele precisa de alguém para quebrar um galho na casa dele, me chama. Outro dia, ele pediu para eu dar uma olhada no videocassete dele e programar para gravar a novela, coisas do tipo.
Que tipo de público mais tem se identificado com o seu personagem?
As crianças, o que está me deixando muito feliz. Elas estão apaixonadas pela novela. Muitos pais me dizem que o filho pede todo o dia para ver o anjo. As crianças foram a minha maior inspiração para fazer esse personagem. Filmes sobre crianças, como os iranianos Balão Branco e A Maçã, que conta a história de duas meninas de 12 anos que ficaram a vida inteira trancadas em casa e de repente saíram, me ajudaram bastante. Também passei a observá-las. É uma coisa que ficou até meio maluca. Não posso ver criança que paro, fico olhando e brincando.
Você acredita em anjos? Reza para um anjo da guarda?
Não dessa forma, mas acredito em mensagens que recebemos todos os dias, através de coincidências que acho que são propiciadas pelo Destino. Coisas que a gente percebe claramente na nossa vida. Acho que todo mundo já passou pela experiência de receber mensagens, de se abrirem caminhos. É nessa forma de mensagem que eu acredito. O anjo é uma forma que a gente está acostumado a ver na nossa cultura, mas para mim são só formas de simbolizar esses tipos de mensagens.
Você passa a imagem de um sujeito intelectualizado. Têm a preocupação de passar essa imagem?
Acho que tem de haver uma preocupação para impedir que passem uma imagem distorcida. Na época de Chiquinha Gonzaga e quando começou Andando nas Nuvens, muitas revistas não me conheciam direito e só queriam saber quem era a minha namorada. Sempre puxando pelo lado da informação fácil. Com o tempo, fui selecionando e procurei ter uma relação direta com o público para não existir filtro para informação errada. Então, sempre fui a vários programas ao vivo, tinha uma coluna que saia de 15 em 15 dias na revista Querida, que acabou, e agora vou escrever para um site, que não posso dizer qual ainda. Gosto de falar sobre o que eu estou estudando, música e teatro. Sempre quis quebrar o gelo entre mim e o público.
Você começou a carreira cedo. O que fez para não se deslumbrar com a fama?
Nunca entrei em nenhum trabalho buscando ficar famoso, aparecer e fazer sucesso e sim pela vontade, experiência e trabalho. Quando fiz Éramos Seis, fiquei famoso, dava autógrafo na rua. Seis meses depois parei de fazer novela e já era um anônimo de novo. Então, não tenho nenhum apego. Acho que o sucesso vem e vai, é uma coisa de fase. O que importa é o trabalho, a continuidade do aprendizado. Na tevê é tudo muito rápido. A gente faz uma novela, recebe 500 cartas, e quando acaba, só recebe 50.
Você está aparecendo no seu primeiro e último trabalho na tevê ao mesmo tempo. Qual a sua avaliação desses dois momentos?
Para mim é um grande prazer estar vendo Éramos Seis e mostrando para as pessoas como eu era há um tempão atrás. É um trabalho muito lindo, tenho muito orgulho e fico muito feliz que esteja passando de novo. Não consigo ver, mas aproveitei para gravar os 20 primeiros capítulos em que apareço para guardar de recordação. Mas não consigo fazer nenhuma comparação, porque são oito anos de diferença. Na época era um hobbie, tudo acontecia por acaso na minha vida. Hoje sou um ator profissional e vivo disso. Talvez a diferença seja essa. Fico encantado com as cenas. Inclusive os meus amigos tem dito, brincando: Pô cara, você era um bom ator e agora....


