Uma revista de reflexão, memória e mapeamento musical do País. Com essa proposta, chega ao público o primeiro número de Brasiliana, que a Academia Brasileira de Música lança como uma espécie de ‘‘cartão’’ da instituição fundada por Heitor Villa-Lobos em 1945.
Com periodicidade quadrimestral, a revista reúne artigos, ensaios, resenhas e transcrições de palestras e discursos feitos na própria Academia. No caso do último tópico, o Paraná ganha destaque na edição de estréia com um elogio acadêmico proferido por Ricardo Tacuchian durante a sessão solene de posse da pianista e compositora Jocy de Oliveira e do regente e flautista Norton Morozowicz, ambos condecorados como novos membros da casa.
A própria casa é o assunto do texto de abertura. Menos conhecida que a similar Academia Brasileira de Letras, a ABM é apresentada como ‘‘um grupo de vanguarda’’ voltado para a revitalização do patrimônio musical pátrio, o que inclui projetos em andamento como um programa de educação musical para comunidades carentes, a criação de um selo fonográfico e a montagem de um banco de dados contendo informações sobre os trabalhos sobre música brasileira publicados aqui e no resto do mundo.
Cantadores nordestinas são tema de reportagem da revista que também trata dos repentesNo artigo seguinte, a questão do plágio é discutida a partir da polêmica gerada na década de 80 com a gravação da música ‘‘Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir Dor’’, pela cantora Amelinha. A música, assinada pelo compositor Zé Ramalho em parceria com o repentista Otacílio Batista, virou objeto de controvérsia na imprensa quando o cantador José Gonçalves entrou com uma queixa judicial reivindicando direitos autorais sobre a melodia da composição.
Outro artigo mostra a importância do acervo de manuscritos musicais disponíveis no arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, onde se encontra um rico material de pesquisa para interessados em música religiosa, particularmente aquela ligada à Catedral da capital paulista. Há pouco, convém lembrar, um CD de divulgação saiu dos fornos reunindo 12 composições de uma série de manuscritos avulsos dos séculos XVIII e XIX pertencentes ao arquivo.
O disco, lançado pelo selo Paulus, foi gravado pelo Grupo Vocal Brasilessentia, acompanhado pela Orquestra de Câmara da UNESP e sob a direção de Vítor Gabriel. O sempre controverso tema do ‘‘mecenato’’ é abordado em outro texto pelo compositor carioca Jorge Antunes (um dos precursores de música eletrônica no País), que critica os incentivos fiscais concedidos pelo Governo a empresas privadas que aplicam em cultura.
ReproduçãoNorton Morozowicz: discurso que homenageou sua posse na Academia, ano passado, foi transcrito para a revista‘‘A Lei do mecenato nada mais faz do que privatizar o apoio à cultura. Este, que constitucionalmente é dever do Estado, é passado às mãos do empresário usurpador’’, protesta ele. E continua: ‘‘A arte revolucionária, que está à frente de sua época e, portanto com um público reduzidíssimo, não pode avançar e contribuir para a cultura nacional se for colocado à mercê do mercado. Não são os empresários e o público consumidor que hão de sustentar a nova e revolucionária produção artística, porque o retorno desse tipo de arte é de longo prazo.’’
Ao final da revista, um ensaio trata das expressões musicais no pluralismo religioso afro-baiano, em texto assinado pelo professor de musicologia e etnomusicologia da universidade do Texas (EUA), Gérard Béhague. Também atenta às manifestações da terra do acarajé, a pesquisadora lIza Nogueira lembra em outro artigo o trabalho desenvolvido pelo Grupo de Compositores da Bahia, entre os anos 60 e 70.
O grupo, que a autora saúda como um dos mais expressivos movimentos de música contemporânea brasileira, legou uma obra ainda a ser descoberta pelos habitantes do ‘‘sul-maravilha’’. Só para o leitor ter uma idéia do experimentalismo dos rapazes, o cultuado e pouco ouvido Walter Smetak foi um de seus integrantes, contrabandeando para o coletivo os famosos instrumentos que inventava em oficinas de fundo de quintal.
Aos interessados, o endereço de Brasiliana é Praia do Flamengo, 172 / 11º andar, Rio de Janeiro, RJ, CEP 22210-030. Telefax: (021) 205-3879. Home Page: www.abmusica.org.br. E-mail: [email protected]

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