Les Percussions de Strasbourg se apresenta em São Paulo
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domingo, 16 de maio de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 17 (AE) - A temporada musical das sociedades de concerto em São Paulo não costuma incluir grupos dedicados à produção contemporânea. Assim, os concertos do conjunto Les Percussions de Strasbourg, a partir de amanhã, no Teatro Cultura Artística, constituem não só uma oportunidade rara de ouvir um grupo moderno como também de lembrar que a música erudita não é só Beethoven, mas John Cage, Varse e Xenakis. Obras desses compositores, aliás, estão nos programas que o grupo francês apresenta amanhã, na quarta e na quinta-feira.
Criado em 1962 por seis músicos de formação clássica em Estrasburgo, e integrado apenas por instrumentos de percussão, o grupo realizou nesse mesmo ano o primeiro concerto escrito especialmente para esse formato. O maestro Pierre Boulez sugeriu a formação do grupo, que logo foi "adotado" por compositores de vanguarda como Stockhausen, Cage e Xenakis, responsáveis por algumas peças que hoje fazem parte do repertório do Les Percussions de Strasbourg.
Algumas dessas obras ficaram identificadas como peças exclusivas do conjunto, como Ionisation, de Varse, a primeira do programa de amanhã à noite. Com a autorização do compositor parisiense, o grupo fez uma adaptação da peça para seis instrumentos, em 1967. Escrita em 1929, a peça teve sua primeira apresentação em 1933, no Carnegie Hall, e provocou choque nos ouvidos de uma platéia pouco familiarizada com peças que exploravam de modo excessivamente livre a variedade de ritmos e timbres. Varse também utilizava instrumentos ausentes nas grandes orquestras (de bongôs a sirenes, passando por tantãs e o sino chinês).
Na versão original, Ionisation era tocada por 13 músicos
que utilizavam 37 instrumentos. A versão do Les Percussions de Strasbourg poderia incorporar todos eles, porque o grupo toca nada menos do que quatro centenas de instrumentos de procedência variada e fabricados com peles, madeira e metal. A parafernália sonora inclui instrumentos pouco convencionais como chicotes e tacos, levando o espectador a suspeitar que entrou numa casa frequentada por sadomasoquistas. Para completar o quadro, o grupo não abre mão dos efeitos de iluminação, como os grandes show de rock. Se o Kiss pode usar todas aquelas luzes, por que eles deveriam ficar no escuro?
Formado por Jean-Paul Bernard, Claude Ferrier, Bernard Lesage, Keiko Nakamura, François Papirer e Olaf Tzschoppe, o grupo colabora com outros conjuntos de vanguarda e importantes compositores contemporâneos escreveram peças especialmente para o conjunto. Eles concederam uma entrevista por fax à AGÊNCIA ESTADO.
AGÊNCIA ESTADO - O que mudou desde a criação do grupo em 1962? O público aceita mais facilmente os compositores de vanguarda ou houve uma retração com a volta do tonalismo na música contemporânea?
Jean-Paul Bernard - Acho que o público sempre aceitou bem Les Percussions de Strasbourg. Certamente em 1962 e nos anos que se seguiram à criação do grupo, por se tratar de uma experiência nova, todos pareciam ansiosos para ouvir o grupo. Há 35 anos viemos pela primeira vez à América do Sul e a música, naquela época, era muito parecida com um laboratório de som, de experimentação. Hoje, os compositores conhecem muito mais os instrumentos de percussão. Não creio na influência negativa do retorno ao tonalismo, talvez porque nossas escolhas artísticas são até mais ecléticas do que no passado.
AE - Muitos músicos contemporâneos escreveram para o grupo. Qual é a peça mais recente composta para Les Percussions de Strasbourg?
Bernard - Só este ano apresentamos peças de 11 novos compositores. A mais recente foi a de Ahmed Essyad, uma peça para seis instrumentos de percussão, orquestra e coro criada em dezembro na Maison de La Radio, em Paris. Em maio, faremos a primeira audição de uma obra de Christian Lauba para seis instrumentos com a participação do feiticeiro africano Adama Drame.
AE - O grupo toca mais de 400 instrumentos de percussão, muitos deles construídos segundo orientação dos próprios compositores, como Xenakis. Como vocês encomendam esses instrumentos?
Bernard - A construção desses instrumentos cabe exclusivamente à imaginação dos compositores. Xenakis criou os sixxens e Cage idealizou os tambores de água. Em geral, eles nos ajudam a concretizar o projeto.
AE - Durante as viagens do grupo devem surgir idéias para novos instrumentos. Vocês entram em contato com compositores locais quando estão em trânsito?
Bernard - É muito comum que eles nos procurem depois dos concertos, mas, de qualquer maneira, nós também fazemos contatos e procuramos conhecer a produção dos países em que tocamos. Em média recebemos 80 partituras por ano em Estrasburgo, que vêm do mundo inteiro e não exclusivamente para instrumentos de percussão. Em setembro, num grande festival francês, nós tocaremos peças de jovens compositores sul-americanos, entre eles o argentino Pablo Ortiz, o chileno Marco Perez Ramirez e o colombiano Vazquez Castañeda. Infelizmente, conhecemos pouco os compositores brasileiros. Em São Paulo, conhecemos um compositor chamado Francisco Menezes.
AE - Cantores pop americanos como Peter Gabriel e Paul Simon gravaram com músicos africanos. O grupo já foi convidado para registrar alguma peça com músicos populares? Vocês aceitariam o convite?
Bernard - Sim, se o projeto fosse interessante, mas não por uma questão de moda. Temos um projeto com o músico africano Adama Drame e com um compositor alemão chamado N. Goebbels, que mistura teatro e música contemporânea. Temos também projetos ecléticos que, acreditamos, estar a serviço da música e gostaríamos muito de fazer algo com Brian Eno e Carla Bley.


