ReproduçãoVal Kilmer e Michael Douglas são os protagonistas de ‘‘A Sombra e a Escuridão’’Tão logo o cinema descobriu o fascínio do espectador diante de locações distantes e exóticas (mesmo quando fielmente recriadas nos amplos quintais dos estúdios), a África marcou forte presença em Hollywood. E sempre como o velho e misterioso continente negro, selvagem, abundante, indomado e colonial. Mas assim como o western, o musical, o filme de gângster, o drama de guerra e os épicos históricos foram caindo em desuso, também os romances que tinham como cenário as extensas savanas aos pés do Kilimanjaro foram esquecidos e terminaram seus dias como fantasmas nas nostálgicas madrugadas televisivas. Exatamente por isso um filme como ‘‘A Sombra e a Escuridão’’ , em lançamento nacional nas locadoras, pode ser saudado como uma espécie de revival isolado de um subgênero que floresceu por volta dos anos 40 e 50, muito ligado a grandes mitos do então poderoso star system , como Clark Gable, Errol Flynn, Ava Gardner, Gregory Peck e Grace Kelly.
Assinado pelo escritor William Goldman, um dos bons roteiristas do cinema americano e responsável, entre outros, pelo inspirado argumento de ‘‘Butch Cassidy and the Sundance Kid’’, Oscar da categoria em 69, ‘‘A Sombra e a Escuridão’’ propõe uma retomada da África mitológica a partir de uma lenda que mistura medo, mistério, aventura, dignidade nativa e equilíbrio ecológico. Apesar do título à primeira vista soar como um eco da narrativa existencial do romance de Joseph Conrad , ‘‘The Heart of Darkness’’ (O Coração das Trevas), na verdade ‘‘A Sombra e a Escuridão’’ são dois leões adultos e eventualmente transformados em comedores de gente. Goldman esteve na África em 84, e ouviu contar a lenda em circunstâncias encantatórias e muito propícias a vôos de imaginação: ao redor de uma fogueira, quase anoitecendo, cercado por uma dezena de membros da tribo Masai.
Segundo o narrador, por volta de 1898, na região de Tsavo, África Oriental, os dois leões chegaram a devorar 130 nativos em alguns meses. Para Goldman, a lenda dos leões matadores é ainda pouco conhecida nos Estados Unidos porque, diz ele, ‘‘quando os americanos vão ao cinema eles querem solução para as questões, e não mais questões. A história desses animais de Tsavo, metade verdade, metade lenda, ainda hoje é um grande mistério. E continuará a ser’’.
Nem Costner, nem Cruise Cercada pelos habituais cuidados, a produção da Paramount levantou vôo para a África do Sul, mais particularmente para a Reserva Songimvelo Game, onde durante 16 semanas uma equipe de quase 400 pessoas realizou as filmagens de ‘‘The Ghost and the Darkness’’. Alí foi ambientada a história dos dois poderosos predadores e de seus implacáveis caçadores, Remington (Michael Douglas), um profissional veterano e cético, e Patterson (Val Kilmer), tenente e engenheiro contratado pelo governo inglês para construir uma ponte sobre o rio Tsavo. Ao contrário da afiadissíma dupla de ‘‘shaitaini’’ ou ‘‘demônios da noite’’ , como eram chamados os leões pelos africanos em pânico, os dois caçadores são obrigados a contornar suas divergências pessoais em nome da própria sobrevivência, já que os espertíssimos leões resolvem ter um dia especial da caça.
O confronto entre os predadores é o grand finale . O estrelato em ‘‘A Sombra e a Escuridão’’ é dividido entre Douglas, Kilmer e os cinco leões especialmente treinados para fazer o papel de apenas dois. No confronto de talentos, as feras de verdade quase sempre levam a melhor. A propósito, os bichos teriam outra companhia, caso Tom Cruise e Kevin Costner não tivessem recusado o personagem que acabou com a cara de Val Kilmer - e até Mel Gibson chegou a ser por um momento escalado. Quem dirige sem comprometer é Stephen Hopkins, realizador de filmes B mas com alguns trabalhos razoavelmente bem acabados, como ‘‘O Predador 2’’.

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