LENNON RASGA O VERBO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de maio de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Tudo o que se leu sobre os Beatles até hoje, soa como um conto de fadas ao colocar a tonelada de textos diante do teor polêmico contido no livro Lembranças de Lennon, que a editora Conrad está lançando no Brasil.
O livro traz a íntegra da longa entrevista que John concedeu à revista Rolling Stone, em 197O e que seria publicado um ano depois quando ele acabara de lançar o álbum John Lennon/Plastic Ono Band e queria dar a sua versão sobre o rompimento dos Beatles.
Lennon, então com trinta anos, solta a língua sem constrangimentos desmontando a mitologia açucarada em torno dos fab four. Aqui ele revela suas várias facetas: a de político e poeta, herói e bad boy, doce e arrogante, enraivecido e pacifista. Verborrágico, ele descarrega baterias contra tudo e todos, não poupando sequer os discos-solos de seus ex-colegas de banda.
Não é um livro para se recostar, esticar as pernas e ler. É mais provável que o leitor queira se levantar e dar uma volta pelo quarto a cada novo parágrafo. Foi o que eu fiz. O livro dá um tranco na gente, como um café expresso muito forte. Quem tem estômago fraco, deve fechar a janela antes de ler. Pode sentir vontade de pular escreve Yoko Ono no texto de apresentação.
Yoko estava casada há um ano com John Lennon. Ela participa da entrevista com pequenas interferências e é tema de vários momentos da conversa, como quando John a defende de Paul McCartney e George Harrison, que a acusavam de ser a pivô da separação do grupo. Eles a desprezavam. Insultavam e ainda insultam a Yoko. Nem sabem que eu percebo diz.
Jann S. Wenner, o editor da Rolling Stone, conduz habilmente a conversa arrancando declarações abrasivas do entrevistado que, em outro contexto, seriam atribuídas a invenções mexeriqueiras de tablóides sensacionalistas. O ex-líder e fundador dos Beatles conta, por exemplo, que durante as gravações do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band entrou no estúdio completamente paranóico e mal conseguia se mexer.
Mais adiante, confessa que as orgias faziam parte do dia-a-dia da banda: As excursões dos Beatles pareciam o Satyricon do Fellini. Em outra passagem, revela sua aversão ao assédio das autoridades nas várias cidades que visitava ao lado de Paul, George e Ringo: Ficavam o tempo todo nos ameaçando, dizendo que falariam com a imprensa sobre nós, fazendo publicidade negativa se não fôssemos ver o diabo da filha deles com aparelho nos dentes. E era sempre a filha do chefe da polícia ou do prefeito, todas as crianças mais detestáveis.
Em outro parágrafo, conta como começou seu envolvimento com as drogas, confessando que tomou LSD umas mil vezes. Existe a idéia de que, com o ácido, devíamos destruir o ego, e foi o que eu fiz. Estava lendo aquele livro idiota do Leary (Timothy) e outras merdas. Foi um negócio em que todo mundo embarcou. E me destruí.
Ao comentar o trabalho dos Rolling Stones, rivais dos Beatles na Inglaterra, não é nada diplomático: Eu gostaria de listar o que a gente criava, e o que os Stones faziam dois meses depois. Em todo disco e em tudo que a gente fez, o Mick faz exatamente igual. Ele nos imita. Quando perguntado sobre o que acha do disco-solo de George Harrison, afirma que não ouviria esse tipo de música em casa, mas não quero magoar o George. Não sei o que dizer. É melhor que o do Paul.
Já sobre o disco deste último, desqualifica-o como tolo: Imagino que ele acabe fazendo um melhor quando for obrigado. Mas acho o primeiro superficial. A versão de Lennon para o fim dos Beatles inclui desde problemas com os funcionários da banda à afirmação de que ele estava cansado de ser coadjuvante de McCartney. Acho que o Paul tinha a impressão agora sei que tem de que agia como pai e de que nós deveríamos ser gratos por ele ter mantido os Beatles na ativa. Mas quando olhamos de maneira objetiva, ele manteve o grupo na ativa em benefício próprio diz.
A entrevista, como se vê, é marcada pelo tom de desabafo e urgência. Foi reunida em livro no ano passado na Inglaterra, na esteira das comemorações em torno dos 20 anos da morte do artista e do lançamento da coletânea 1 e da biografia The Beatles Anthology. A edição foi feita a partir da transcrição das fitas originais, o que possibilitou que algumas partes deixadas de fora na publicação original fossem incorporadas ao novo texto.
Em vários trechos, o depoimento pega fogo. Confira algumas faíscas nesta página.


