São Paulo, 25 (AE) - Oswaldo Lenine Macedo Pimentel, Lenine, conta que seu novo disco, "Na Pressão" (BMG), tem esse nome porque foi feito "aos 35 minutos do segundo tempo". Na verdade, ele tinha outro trabalho pronto - deveria chamar-se "Falange Canibal". Mas resolveu mudar tudo quando todos os prazos já estavam se esgotando.
"Por ser uma pessoa bissexta, tenho essa necessidade de mudar todo o tempo", ele diz. "Quem pilota meu trem é a intuição." Assim como os discos novos de Zeca Baleiro e Chico César, "Na Pressão" chega com uma responsabilidade dupla: demonstrar que a terceira onda da música nordestina - que surgiu para suceder a Luís Gonzaga, Caetano Veloso, Gil, Moraes Moreira e Alceu Valença - não era apenas fogo-de-palha.
É o quarto disco do cantor e compositor. Ele dividiu com Lula Queiroga o LP Baque Solto. Fez com Marcos Suzano o CD "Olho de Peixe" (disco cult que está sendo relançado pelo selo de Lenine, Mameluco). E lançou, também pela BMG, o disco "O Dia em Que Faremos Contato", que já vendeu 60 mil cópias e o levou até a cantar na praia com a apresentadora Sabrina, da MTV.
Lenine não se ilude. Não acha que o sucesso veio bater à sua porta inadvertidamente. "Isso já vinha se cristalizando fazia 15 anos; é um processo de muito trabalho, um somatório de sonhos", diz.
O cantor vê qualidades em pelo menos uma característica da música popular brasileira atual: a generosidade. "Acho que existe hoje um livre trânsito muito saudável na MPB", afirma. Ele define isso como um tipo de vasos comunicantes. "É um intercâmbio que aproxima pontos extremos disso que eu chamo da turma dos sem-turma", pondera.
Em "Na Pressão", esses intercâmbios são radicais. Naná Vasconcelos e Arnaldo Antunes, Davi Morais e loops de percussão. Em Jack Soul Brasileiro, já gravada por Fernanda Abreu, ele realiza o sonho de um encontro virtual com Jackson do Pandeiro, que surge cantando num sampler inusitado. A letra de "A Rede" faz a aproximação entre as redes de pesca e de balanço e a rede de conexões da Internet. É possível reconhecer aqui e ali até grooves de Chemical Brothers e Massive Attack, entre outros.
"Eu vou fazendo, depois eu reconheço", diz Lenine. "Não existe originalidade que resista a uma boa pesquisa bibliográfica", brinca, citando um aforismo de Bráulio Tavares. O cantor resiste às tentativas de definição da sua música. "Não consigo exacerbar a ponto de, antes de criar, decupar a criação", acentua. "Na verdade, dou pistas, algumas delas falsas."
O músico está ocupado agora com a turnê de lançamento do disco, que deve iniciar lá pela metade de outubro. Toca no Rio, em São Paulo e no Recife e depois vai para a Europa. Transportar o som do disco para o palco, diz Lenine, é outra aventura - que até mesmo o distancia dos motivos iniciais. "O disco fica até ingênuo quando o levo para o palco; não tem a virulência do ao vivo, não tem a força do embate."

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