O badalado Lenine começa a abrir seu arquivo de gravações. Saudado como ‘‘revelação’’ no ano passado quando deixou público, crítica e os próprios pares de joelhos com o lançamento do álbum O Dia em Que Faremos Contato, o músico pernambucano revolveu passar a limpo o currículo com a reedição de seus trabalhos anteriores.
E o primeiro da leva, Baque Solto, já está nas lojas. O disco, agora em formato de CD, foi lançado originalmente em 1983 pelo selo independente MP,B com distribuição pela WEA. Está retornando às prateleiras por iniciativa do produtor do selo, João Mário Linhares, com a concordância do músico.
ReproduçãoBaque Solto é um disco de parceria, de Lenine com Lula Queiroga. Traz 12 faixas, nas quais os dois alternam os vocais em canções próprias ou de autoria dos amigos Zé Rocha, Pedro Osmar e Erasto Vasconcelos. O poeta Bráulio Tavares, responsável pelos textos no encarte de O Dia em Que Faremos Contato, também assina um comentário na embalagem do repertório antigo.
O disco flagra a dupla a meio caminho entre a MPB, os ritmos nordestinos e o rock. Ao reencontrá-lo no estúdio, durante a remixagem, Lenine se divertiu com o material pré-gravado. ‘‘Eu não me lembrava mais das canções’’ - conta ele, por telefone. ‘‘Fazia anos que eu não ouvia aquilo. Não é demagogia não, nem o disco eu tinha mais. São 15 anos de distanciamento, e de lá para cá compus muita coisa. Música só me pertence quando estou gravando. Depois que fica pronta e é registrada em disco, vira um filho rejeitado e passa a ser um produto expatriado’’.
Baque Solto foi gravado com o propósito de documentar o espetáculo Trem Fantasma, que ficou um mês em cartaz no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro. Para reproduzir o ‘‘clima’’ das apresentações, o estúdio foi transformado em palco com todos os músicos tocando juntos como se fosse ‘‘ao vivo’’. Segundo o cantor e compositor de 39 anos, o disco ‘‘mantém uma energia avassaladora, ainda que de forma imatura’’.
Em sua avaliação, o trabalho já trazia elementos anunciadores da consagração posterior. ‘‘Estão ali o mesmo jeito de cantar, que usa a voz como um instrumento, a mesma forma de compor e o mesmo estilo percussivo de tocar violão. Isso tudo foi confirmado este ano (98) com a conquista do prêmio Sharp, o qual eu e Queiroga ganhamos na categoria revelação de MPB com a canção ‘A Ponte’, uma de nossas co-autorias’’.
Lula Queiroga acompanhou as remixagens de longe. Conversou com Lenine por telefone, durante as horas em que o parceiro se enfiou no estúdio. Há anos morando em Recife, ele divide suas atividades de cantor, compositor e letrista ganhando a vida como publicitário. Lenine, por sua vez, é músico em tempo integral funcionando como uma fábrica de criação - já compôs para Elba Ramalho, Fernanda Abreu, Tim Maia, Os Cariocas, Jane Duboc, MPB-4 e Dionne Warwick, só para ficar nos mais ilustres.
Recentemente, enviou uma canção para Ney Matogrosso para o próximo disco do cantor. Há pouco, também, participou dos álbuns-tributos a Sérgio Sampaio e Jackson do Pandeiro. No entanto, mesmo longe de ser um novato, ele vê com normalidade o reconhecimento recente de seu talento. ‘‘Acho procedente me incluírem na categoria de ‘revelação’’ - diz. ‘‘Afinal, trata-se de uma revelação para o grande público. Antes nosso trabalho chegava a uma platéia de, no máximo, 30 ou 40 mil pessoas’’.
Hoje, como se sabe, sua audiência atingiu o público de novela.

mockup