Lenine leva sua 'falange' ao Cabaré


Nelson Sato

Reportagem Local
Nelson Sato Reportagem Local

Há tempos, aguardava-se Lenine em Londrina. Não por acaso, seu show foi um dos que tiveram os ingressos esgotados tão logo chegaram à Casa de Cultura, o posto de venda para as atrações do Cabaré do Filo (Festival Internacional de Teatro de Londrina).
Lenine sobe ao palco do Centro de Eventos Maracaju (esquina das avenidas Arthur Thomas e Tiradentes) às 23 horas, sendo sucedido pelas bandas locais Grenade e Harmônica Blues. A espinha dorsal do show é o álbum ‘‘Falange Canibal’’, seu terceiro disco-solo, lançado em março.
‘‘Mas devo passear por algumas canções dos CDs anteriores, particularmente do Olho de Peixe’’ – anuncia ele por telefone. ‘‘Olho de Peixe’’ é o álbum que gravou com o percussionista Marcos Suzano em 1993 e que ganhou uma subestimada reedição há três anos. De lá para cá, sua trajetória sofreu uma guinada. De talento reconhecido por poucos passou a artista festejado até pela crítica mais exigente do exterior.
Embora ostente duas décadas de carreira, o cantor e compositor pernambucano só tomou a frente do palco com o lançamento de ‘‘O Dia em que Faremos Contato’’, em 1997. O disco foi aclamado combinando ritmos nordestinos, instrumental percussivo e timbres eletrônicos. A abordagem manteve-se em ‘‘Na Pressão’’, de 1999. ‘‘Esses discos eram carregados de informação’’ – explica ele.
‘‘Já o ‘Falange Canibal’ está mais contido. As informações estão presentes, mas aparecem disfarçadas. Procurei trabalhar com poucos elementos sonoros fazendo do mínimo o máximo. O foco é o silêncio, a pausa, a falta, a ausência’’. O título do CD faz menção a um grupo de artistas que movimentava um espaço cultural nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, no final dos anos 80.
Lenine fazia parte da trupe promovendo noitadas de música, teatro e poesia. Já naquela época, e bem antes, suas composições respondiam mais a estímulos visuais do que propriamente musicais. ‘‘Minhas músicas são pequenos roteiros’’ – define. ‘‘Parto sempre do olhar, de flagrantes de rua, de cenas cotidianas. Não me lembro de ter feito uma única canção a partir de referências sonoras. Não sei explicar o porquê. Isso é um paradoxo para mim’’.
Apaixonado por cinema, revela que escreve roteiros de curtas e longas há vários anos. ‘‘Está tudo nos baús. Um dia quero bancar minhas produções mantendo a independência libertária que me orienta na música. Estou capitalizando’’ – conta. Por enquanto, sua incursão pelo cinema limita-se a dirigir – ou emprestar canções para – trilhas sonoras de filmes, como foi o caso do recente ‘‘Caramuru - A Invenção do Brasil’’, de Guel Arraes.
Durante as gravações de ‘‘Falange Canibal’’, ele arregimentou diversas participações ilustres reunindo nomes como arranjador e tecladista Eumir Deodato, a cantora nova-iorquina Ani di Franco, o trombonista Steve Turre, Frejat, integrantes da Velha Guarda da Mangueira, Henrique Portugal e Haroldo Ferreti (Skank) e os músicos Will Calhoum e Doug Wimbish (da banda norte-americana de rock Living Colour).
Os dois últimos foram convidados após convidarem o próprio anfitrião para produzir duas faixas do próximo disco da banda. A cada ano, Lenine estreita contatos com artistas estrangeiros acompanhando a recepção de seus discos no mercado internacional. As excursões para o exterior também têm sido constantes, o que tornou-se um problema para o compositor. ‘‘As turnês eram meio atribuladas, uma série de vai e volta, que me impedia de conhecer o Brasil profundo. Este ano vou me dedicar a percorrer o país e deixar as viagens para 2003’’ – revela.
O compositor não individualiza suas conquistas no exterior. Segundo ele, o prestígio conquistado lá fora é apenas consequência de um longo processo de absorção da música popular brasileira pela platéias gringas. ‘‘Isso vem da década de 20, quando Pixinguinha levou sua música refinada para os europeus, dando-lhes um tapa na cara pois esperavam encontrar uma arte naif, primitiva, de terceiro mundo. Depois dele, outros artistas fizeram o mesmo mostrando criações híbridas, contemporâneas e futuristas’’.
Mais uma vez, o Espaço de Eventos Maracaju ficará encolhido para abrigar o público. Chegando ao fim, a programação musical do Filo prossegue amanhã com Tribo de Jah e sábado com Beth Carvalho.


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