São Paulo, 06 (AE) - O cantador pernambucano Lenine encarregou-se de fazer, na prática, a comprovação da tese - pode parecer esquisito, mas é verdade - do historiador José Ramos Tinhorão: o rap, aparentemente música negra, urbana, norte-americana do fim do século, de fato mimetiza, torna contemporânea, uma forma de expressão que vem do cantochão e passa pelos emboladores do sertão nordestino.
Para tanto, valeu-se Lenine da participação, em seu espetáculo de quarta-feira, na abertura do Heineken Concerts, da dupla francesa Fabulous Trobadors, dois garotos que adoram eletrônica, Hermeto Paschoal e Caju e Castanha. Caju e Castanha são cantores de embolada de Pernambuco. Cantam e tocam pandeiro. Improvisam. Na verdade, não improvisam, mas adaptam certos formatos de quadras de versos às circunstâncias.
Os Fabulous Trobadors, de Paris, cantam repentes nordestinos, aos quais chegaram pela via da música negra urbana dos Estados Unidos. A base musical deles é pré-gravada, como os versos de Caju e Castanha são pré-definidos, adaptáveis ao momento. O espetáculo montado por Lenine para o Heineken Concerts teve ainda a participação do contrabaixista Richarrd Bona, de Camarões, do sanfoneiro Richard Bona, de Madagascar, do percussionista Marcos suzano, do Rio de Janeiro, e do acordeonista Dominguinhos, de Garanhuns, Pernambuco.
Foi um espetáculo de intenções e resultados: Lenine, um migrante (fez carreira no Rio) que submete toda a novidade possível do pop internacional aos módulos do centenário canto nordestino, chutou a cordinha das fronteiras, como quem diz que o sertão é onde estejamos. Questão que, na vida real, pode e deve ensejar discussões mais amplas. No palco, visto da platéia, Lenine fez um dos melhores shows já vistos nos últimos 500 anos. Para quem soube ver e ouvir, cantou o indizível.

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