O ditado popular ''o que os olhos não veem, o coração não sente'' definitivamente não se aplica aos músicos com deficiência visual. Como forma de compensar a perda de um dos sentidos, eles são privilegiados com audição e tato mais aguçados que o da maioria das pessoas. A sensibilidade estética para a música também ganha uma dimensão maior dentro desse universo.
Lecionando piano popular e teclado há mais de 30 anos, desde 1992 a educadora musical Maria Solange Godoy Scripes dá aulas para alunos cegos. O foco sempre foi o desenvolvimento da aprendizagem a partir da audição dos alunos, o que se chama popularmente ''tocar de ouvido'', mas nos últimos dois anos o seu trabalho vem se diferenciando, já que ela também está ensinando a seus alunos musicografia braille.
No ano em que se comemora o bicentenário de nascimento de Louis Braille, inventor do sistema de escrita destinado a deficientes visuais, esse código de notação musical universalmente adotado por pessoas cegas - ainda pouco difundido, sobretudo devido à falta de capacitação de professores e à escassez de partituras e materiais didáticos transcritos para esse código - é uma ferramenta importante para o aprimoramento do ensino musical para cegos e sua capacitação profissional.
''A partir do aprendizado desse código o aluno adquire independência para escrever e ler partituras. Isso possibilita que esse público frequente espaços de formação musical comuns a todas as pessoas, concebendo-se uma educação musical inclusiva'', ressalta Maria Solange.
Tudo começou no Festival de Música de Londrina, onde Maria Solange participou de oficinas sobre musicografia braille com Isabel Bertevelli, do Instituto de Cegos ''Padre Chico'', de São Paulo. Animada com o potencial da metodologia, ela firmou parceria com o Centro de Apoio Pedagógico para Atendimento de Pessoas com Deficiência Visual (CAP) de Londrina. Uma das beneficiadas é a aluna bolsista Gabriella Maria Couto de Oliveira, de 15 anos.
Fá de música sertaneja, Gabriella já toca ''Luar do Sertão'' e também está estudando a música ''O Sol'', do Jota Quest. ''Na verdade, gosto de todos os ritmos, desde que a música tenha conteúdo'', avisa.
Gabriella nasceu com glaucoma, teve descolamento das duas retinas e perdeu completamente a visão aos seis anos de idade. Ela diz que o que mais lembra são as cores, e que a vermelha é sua preferida.
Empolgada com as aulas de teclado e piano, Gabriella contou que está gostando bastante da nova metodologia. Segundo ela, as tentativas anteriores ''não fluíram''. Aluna dedicada e muito elogiada pela professora, ela tem na ponta da língua o seu recado para as pessoas cegas que querem aprender algum instrumento musical: ''Você não pode desistir, tem que ir à luta, pois a vida é uma escola de superação''.

SERVIÇO
- Maria Solange Godoy Scripes - (43) 3323-3729
- Marcos Santos - (43) 3357-3805/9102-9604
- CAP - (43) 3338-7999

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