Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
A Editora Rocco está lançando uma nova edição de ‘‘Como Nasceram as Estrelas’’, obra infanto-juvenil em que Clarice Lispector narra lendas do folclore brasileiro
Para alguns indígenas, as estrelas do céu são curumins travessos e gordinhos. A lenda ‘‘Como Nasceram as Estrelas’’ conta que numa época em que o céu era apenas um véu negro sem estrelas, um grupo de curumins acompanhou as mães no trabalho de colheita de milho. Os garotos levados apanharam algumas espigas e, fugindo das mulheres, correram de volta para a aldeia para que a avó lhes fizesse bolo de milho. Após se fartarem de bolo, todos de barriga inchada, ficaram preocupados com a reação das mães. Tentando fugir da repreensão, pediram para que os beija-flores amarrassem um cipó no topo do céu. A intenção era subir o mais alto possível para se esconderem da fúria materna.
Quando as mães voltaram da coleta, encontram os filhos no alto do cipó e ficaram furiosas. Dispostas a dar uma boa lição nos curumins, subiram no cipó e o cortaram numa certa altura. Ao caírem no chão, as mulheres se transformaram em onças. Os meninos, não podendo mais descer, se transformaram em gordas e brilhantes estrelas.
Esta é umas das lendas recontadas por Clarice Lispector no livro infanto-juvenil ‘‘Como Nasceram as Estrelas’’ que acaba de ser relançado pela Editora Rocco com ilustrações de Fernando Lopes. Publicada originalmente em 1978, a obra traz 12 lendas brasileiras, uma para cada mês do ano, narradas de maneira particular dentro do estilo da escritora.
Mais conhecida por sua literatura adulta, Clarice Lispector escreveu vários livros destinados às crianças (‘‘O Mistério do Coelho Pensante’’, ‘‘A Vida Íntima de Laura’’, ‘‘A Mulher Que Matou os Peixes’’ e ‘‘Quase de Verdade’’). Em ‘‘Como Nasceram as Estrelas’’, reforça sua posição de não ‘‘infantilizar’’ a prática narrativa.
Clarice Lispector (1926-1977) não realiza uma apresentação isenta das histórias contadas. Adota a postura de colocar, em algumas lendas, uma ‘‘moral da história’’ no final, semelhante ao que acontece nas fábulas.
Em ‘‘O Negrinho do Pastoreio’’, por exemplo (lenda gaúcha do garoto escravo que é espancado pelo dono por qualquer motivo e recebe ajuda de Nossa Senhora), Lispector termina o texto de maneira lúcida com as seguintes palavras: ‘‘Será que a moral desta história é que o bem sempre vence? Bom, nós todos sabemos que nem sempre. Mas o melhor é a gente ir-se arranjando como pode e dar um jeito de ser bom e ficar com a consciência calminha.’’
Em ‘‘Alvoroço de Festa no Céu’’, tomando outro exemplo, a autora segue outro caminho. Narra a história do sapo que queria ir a uma festa no céu onde apenas as aves haviam sido convidadas. Usando a esperteza, entra dentro do violão do urubu e pega uma carona até o local da festa. Na volta, o urubu percebe o golpe e joga o sapo clandestino lá de cima. Clarice termina o texto da seguinte forma: ‘‘Moral da festa? Bem, não houve.’’
As lendas que compõem ‘‘Como Nascem as Estrelas’’ pertencem a dois grupos. De uma lado estariam as história mitológicas de origem indígena como ‘‘O Pássaro da Sorte’’, ‘‘A Fruta Sem Nome’’, ‘‘A Perigosa Yara’’ e ‘‘Como Nasceram as Estrelas’’ que dá título ao livro. De outro lado, histórias tradicionais do folclore caboclo como ‘‘As Aventuras de Malazarte’’, ‘‘Curupira, o Danadinho’’, ‘‘Negrinho do Pastoreio’’, ‘‘Alvoroço de Festa no Céu’’, ‘‘Uma Festança na Floresta’’ e ‘‘Do Que Eu Tenho Medo’’ sobre a folclórica figura do saci-pererê. Encerrando a obra, com o mês de dezembro, Clarice Listector apresenta ‘‘Uma Lenda Verdadeira’’, uma poética narrativa sobre o nascimento de uma criança numa manjedoura.
• ‘‘Como Nasceram as Estrelas – Doze Lendas Brasileiras’’ de Clarice Lispector, ilustrações de Fernando Lopes, Editora Rocco, 56 páginas, R$ 18,00.

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