Lendário capoeirista
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de junho de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Toda pessoa que vira lenda deixa de ser gente porque o corpo, a alma, as palavras se tornam uma fumaça translúcida de histórias. Manuel Henrique Pereira, o ''Besouro Cordão-de-Ouro'', personagem que dá nome ao espetáculo carioca, que traz ao 40º Festival Internacional de Londrina (Filo), a direção de João das Neves, foi encantado, vivendo para sempre entre os que não morrem nunca.
Não é só porque o maior capoeirista de todos os tempos tinha o corpo fechado, que se tornou imortal, mas porque ainda é capaz de inspirar obras, como o musical que estréia hoje, com reapresentações até domingo, às 22h, na Casa de Cultura da UEL.
''Besouro Cordão-de-Ouro'' ou ''Besouro-Mangangá'' passeia com a sua vida no primeiro texto para teatro do letrista Paulo César Pinheiro, que entre os seus intérpretes tem Elizeth Cardoso, Simone e Clara Nunes - para a peça, ele compôs músicas e letras inétidas.
Das mãos de um texto de fino corte, a confecção da direção de Neves e o arremate final da direção musical de Luciana Rabello, nasceu a vestimenta perfeita para cobrir o corpo de uma lenda, o que rendeu a indicação ao Prêmio Contigo de Teatro nas categorias de Melhor Espetáculo Musical Brasileiro e Melhor Cenário (Ney Madeira). A peça também concorreu ao Shell de Melhor Direção, Música e Cenários, vencendo como Melhor Música de 2008.
''Cordão-de-Ouro'' - que tocava violão, compunha sambas-de-roda e chulas, como o samba ''Canto do Besouro'', com os versos que inspirou Noel Rosa: ''Quando eu morrer/Mão quero choro nem vela/Quero uma fita amarela/Gravado com o nome dela/'' tocou Pinheiro, que compôs a música ''Lapinha'' inspirada nas mesmas palavras. A composição, em parceria com Baden Powel, foi gravada pela primeira vez por Elis Regina.
A canção serviu de mote para o musical, ganhando novos versos especialmente para o espetáculo. ''A minha preocupação na direção musical foi ser o mais fiel possível. Quis usar apenas os intrumentos da capoeira, mas fui obrigada a inserir outros, como o cavaquinho. Abri mão de fazer arranjos. Fizemos um trabalho com o elenco, já que alguns atores nunca tinham cantado, para aproximá-los da linguagem de um musical. Foi um trabalho intensivo, mas muito produtivo'', afirma a diretora musical Luciana Rabello, esposa de Pinheiro.
Ela ressalta a direção de Neves, que deu uma visão particular ao personagem mitológico. Um dos fundadores do Opinião, que ficou em atividade por 16 anos, trabalhando com autores como Vianinha, Neves levou para o palco um ''Cordão-de-Ouro'', que fez bastante sucesso no Festival de Curitiba, este ano, contando a vida do capoeirista de Santo Amaro da Purificação.
Sobre o personagem, dizem que nem arma de fogo ou punhal atravessavam o corpo fechado. Envolvido na política, justiceiro, o personagem é jogado nos cenários de Madeira, um palco que se transforma numa roda de capoeira para que os atabaques e caxixis saudem o predestinado a não ser gente.


