Marcos Losnak
Especial para a Folha2

Arquivo FolhaPaulo de Moraes: ‘‘Londrina não perde nada com a saída do Armazém. O grupo significa pouca coisa para a cidade. O que vem de fora é sempre melhor. É uma pena...’’ Estruturas metálicas, armações de madeira, caixas e mais caixas. Tudo era transportado para o caminhão. O motorista, com forte sotaque mineiro, repetia o horário de chegada afirmando que precisava de alguém para descarregar a carga. Era uma das primeiras tardes de 1998, um sol alucinante bombardeava os telhados. O caminhão estava sendo carregado com os cenários dos espetáculos ‘‘Out Cry’’ e ‘‘Sob o Sol em Meu Leito Após a Água’’ do Companhia Armazém de Teatro. O destino era a cidade de São Paulo, onde a companhia ficaria em temporada no Centro Cultural Vergueiro.
O que seria mais uma das centenas de viagens realizadas pela companhia dirigida por Paulo de Moraes, era na realidade uma mudança. Havia um aroma de despedida no ar. Significava a real e concreta transferência do Armazém, com todos seus integrantes, para a cidade do Rio de Janeiro. Londrina entraria para o plano das lembranças. No final da temporada em São Paulo, no início de fevereiro, o caminhão levaria tudo definitivamente para o Rio.
Paulo de Moraes, deu os últimos avisos ao motorista, enxugou o suor da testa e disse numa espécie de suspiro ‘‘agora podemos conversar’’. Dois assuntos haviam-me levado alí para uma entrevista. O primeiro, sua indicação como melhor diretor de 1997, com o espetáculo ‘‘Sob o Sol’’, nos dois mais tradicionais prêmios das artes cênicas do país, o Prêmio Shell/Rio - ao lado de Ulysses Cruz e Antônio Abujamra - e o Prêmio Mambembe/Rio. O segundo, sobre sua saída de Londrina após 10 anos de espetáculos germinados em solo vermelho.
Arquivo Folha/Milton DóriaPatrícia Selonk em cena de ‘‘Out Cry’’: atriz foi indicada para o prêmio Mambembe/Rio de 1997
Sobre o significado de sua indicação aos prêmios suas palavras foram curtas. ‘‘Creio que seja um reconhecimento do trabalho que venho realizando nos últimos 10 anos, um trabalho de pesquisa. Nada muito além disso.’’ Sobre os motivos de sua mudança para o Rio, sua face se tornou mais expressiva, alguns pedaços de tristezas, alguns pedaços de alegrias. ‘‘Chegou o momento de ir para um centro maior e o Rio acenou como lugar ideal. É um procedimento natural para o desenvolvimento de meu trabalho e para os atores do Armazém. Sempre acreditei que era possível ficar aqui, como uma sede, criando espetáculos e viajando em temporadas pelo Brasil. Mas com o tempo isso foi se tornando cada vez mais difícil.’’
Curioso é o fato de que ao mesmo tempo que experientes grupos teatrais deixam a cidade em busca de novas perspectivas - o grupo Cemitério de Automóveis, dirigido por Mário Bortolotto, trocou Londrina por São Paulo em 1996 - não há novas companhias em desenvolvimento. Por outro lado, a cidade assiste a formatura da primeira turma da Escola Municipal de Teatro - mantida pela Funcart -com o espetáculo ‘‘Alice Através do Espelho’’ e a entrada da primeira turma do curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina. Pode-se supor que a cidade vive um processo de troca do aprendizado dos grupos pela sistematização do conhecimento dado pelas escolas. Indagado sobre este ponto, Paulo de Moraes - que coordenou a Escola Municipal de Teatro durante o ano de 1997 - coçou o cavanhaque e falou pausadamente. A imagem de diretor durão, comentada pelas esquinas, revelou-se um equívoco. ‘‘Escolas e universidades não formam artistas, formam técnicos. O coração de um artista não é fruto de nenhuma escola, é o desenvolvimento do próprio ator como ser humano alimentado pela vivência de um grupo. A minha esperança é que, através destes cursos, muitos grupos apareçam para o desenvolvimento de artistas com um coração pulsando dentro do peito. Não precisamos de técnicos.’’
De fora é melhorA cidade perde com a saída do Armazém? Paulo sorriu com seriedade. ‘‘A cidade não perde nada. Não perde porque o Armazém significa pouca coisa para ela. Na realidade Londrina é uma cidade provinciana que possui a sorte de contar com muitas pessoas de talento. É uma cidade que pensa e age de modo provinciano: o que vem de fora é sempre maior, melhor, mais bonito. É uma pena.’’
Sob a direção de Paulo, o Armazém Companhia de Teatro integra, de forma definitiva, a história do teatro de Londrina. Em seus dez anos de existência, comemorados ano passado, encenou 14 peças. Desde a reflexão sobre o mecanismo da violência do mundo contemporâneo de ‘‘A Ratoeira é o Rato’’ até o clássico ‘‘A Tempestade’’ de Shakespeare, às margens do Lago Igapó, com Paulo Autran atuando ao lado de atores locais. A Companhia revelou artistas como Patrícia Selonk, apontada pelos críticos como uma das maiores jovens atrizes brasileiras - mais uma vez indicada para o Mambembe/Rio de 1997.
No futuroPara Paulo de Moraes, o ano que se inicia será de muito trabalho. Tem agendado quatro montagens para 98, além de assumir efetivamente o cargo de professor da CAL (Casa das Artes Laranjeiras) no Rio. Para o primeiro semestre está a montagem, com atores cariocas, de um espetáculo com textos do filósofo grego Platão. Para o segundo semestre, a montagem de ‘‘Electra’’ com o Armazém e a remontagem de ‘‘A Ratoeira é o Gato’’ com atores convidados - com este espetáculo, encenado originalmente em 1993, Paulo também foi indicado ao prêmio Shell e Mambembe. Sobre o quarto projeto, o diretor prefere manter segredo, apenas adianta que deverá contar com um dos maiores atores da história do teatro brasileiro.
‘‘Preciso ir agora’’ disse, levantando-se em direção aos desjuntores. Desligou-os. ‘‘Podemos conversar outro dia, pode ser por telefone, acho que esta última pergunta sobre a ausência de política cultural na cidade pode resumir uma série de coisas.’’ Fechou a porta de correr, colocou o cadeado. ‘‘Quer uma carona?.’’ -‘‘Não é necessário, que vou andando.’’ -‘‘Vem, eu te levo.’’ - Não precisa, vou andando.’’ - ‘‘É... eu também vou andando.’’

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