LEMINSKI NA INTIMIDADE
Sim, ainda há inéditos de Paulo Leminski. Poemas, cartas, traduções e revelações da vida e obra do escritor curitibano (1944-1989) estarão dispostas na biografia O Bandido que Sabia Latim, do jornalista Antônio Carlos Martins Vaz. Com lançamento previsto para abril, pela Editora Record, o livro surge para preencher não apenas a lacuna da literatura síntese do poeta da Cruz do Pilarzinho, mas também para mostrar um panorama pouco ou nada conhecido do autor.
Trata-se de uma obra encomendada pela viúva do poeta, Alice Ruiz, no final de 1998, às vesperas da morte de Leminski completar dez anos. A também poeta Alice conta que a idéia do livro surgiu numa busca de espaço para ela própria. Eu estava cansada de falar sobre ele. Não sobrava tempo para mim, declarou. Mas prefere não comentar o conteúdo da biografia, que também ajudou a pesquisar. Já encomendei a obra para não falar sobre o assunto.
A cautela de Alice tem motivos. No livro, Martins Vaz publica documentos capazes de comprovar a existência de um filho de Leminski até então desconhecido do público. Com Alice, o poeta viveu 20 anos e teve três filhos - Estrela, Áurea e Miguel, morto aos dez anos. Quando os dois se conheceram, no final dos já distantes anos 60, Leminski ainda era legalmente casado com a artista plástica e desenhista Neiva Maria de Souza, com quem teria tido um filho, hoje com 33 anos.
A desenhista e o poeta se casaram em 1961, quando Leminski tinha 17 anos e ela 15. Em 1968 eles já não mantinham um relacionamento formal, mas moravam na mesma casa, uma espécie de comunidade hippie em Curitiba. Nessa época, sabe-se ou lembra-se, estava muito em voga um certo tipo de prática poética que se confundia com um tipo de comportamento quase experimental quando se tratava de relações. Poemas breves, relações imediatas. E Leminski, Neiva e Alice passaram a viver na mesma casa, com quem mais chegasse. Nessa época, Neiva passou a namorar o jornalista Ivan da Costa.
Alice e Neiva engravidaram no mesmo ano, em 1968, e outra trajetória de histórias antagônicas teve início. Paulo e Alice se mudam e passam a viver juntos. Neiva e Ivan seguem para o Rio de Janeiro, onde moram atualmente. A paternidade do filho de Neiva nunca veio à tona, até há pouco tempo, quando o jornalista Martins Vaz começou a pesquisar a vida do poeta, de quem também foi amigo pessoal.
Vaz se ampara em documentos, como uma certidão dupla de nascimento, para sugerir a paternidade. Consta que o garoto foi registrado em 23 de novembro de 1968, já no Rio de Janeiro, com o nome de Paulo Leminski Neto, filho de Paulo Leminski Filho e Neiva Maria de Souza, mas que posteriormente foi registrado como sendo filho de Ivan Costa e com o nome de Luciano Costa. Vocalista da banda carioca X-Rated, na década de 90, Luciano Costa usava o pseudônimo de Luck Lizard.
Nem Neiva, que hoje está casada com Ivan Costa, nem Alice falam diretamente sobre o assunto. Alice é retórica, mas admite a existência dos documentos. Diz ainda que não seria contra um teste de DNA para comprovar a paternidade do músico. A Folha falou com Neiva por telefone, mas ela preferiu não se pronunciar, dizendo que quem deve explicar algo é o biógrafo.
Martins Vaz despista e conclama que ainda é cedo para falar do livro e de sua pesquisa, ainda que o lançamento, segundo a própria editora, esteja previsto para meados de abril. Também tem receio de uma possível ação judicial movida por Neiva, que não quer que a história seja revelada.
Além desse fato inédito, em O Bandido que Sabia Latim a biografia de Paulo Leminski, ele reúne 81 entrevistas, além de textos nunca antes publicados e algumas cartas para o irmão Pedro Leminski, quando este morava em Buenos Aires. O objetivo é revelar uma intimidade mais descontraída do poeta, adianta o jornalista.
A biografia conta a história de Leminski em ordem cronológica. Até a infância e a juventude foi a fase mais difícil, conforme acusa Vaz. Para levantar dados dessa época, ele contou com a ajuda das tias maternas de Leminski e de pessoas que conviveram com ele.
Das 400 páginas do livro, compiladas em 11 capítulos, Vaz destaca o que revela a fase em que o poeta passou entre os padres beneditinos no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, quando tinha 13 anos. Nessa época, acentua o jornalista, Leminski entrou em contato com a vasta biblioteca dos padres. Quase 70 mil obras clássicas em latim e grego. Entrevistei alguns monges e oblatos, que conviveram com o poeta no mosteiro. O resultado é uma visão do Paulo seminarista que até então ninguém conhecia.
O poeta, tradutor, músico, ensaísta, romancista e judoca faixa-preta (entre mais uma infinidade de funções) Paulo Leminski Filho nasceu em Curitiba em 24 de agosto de 1944. Na sua origem, uma mistura de poloneses, portugueses, índios e pretos conferiu uma personalidade forte, marcante que desafiava e desafia os seres pensantes que se aventuram à leitura de sua obra.
Apesar das compilações já publicadas, incursões pelas livrarias de Curitiba revelam pouco da obra do escritor. Do homem, quase nada. O bandido que Sabia Latim tem a missão de preencher essa lacuna e contar aos órfãos de Leminski como a criação literária se mistura com a vida do autor, nos momentos concentrados de fusão entre poesia e realidade.
Momentos que se traduzem, exemplifica Vaz, em passagens categóricas do poeta pela cidade, como a convivência nos bares e ares da Boca Maldita. Leminski traduziu Curitiba e uma época, que se revela na primeira biografia publicada do poeta. Ele morreu em 1989 já bastante debilitado pelo álcool. Já tinha se separado de Alice Ruiz e passou seus últimos meses ao lado da cineasta Berenice Mendes.
A Editora Record, através de sua assessoria de imprensa, informou que o livro será lançado simultaneamente em três capitais - Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. A obra ainda está no forno e a Editora prefere não divulgar a capa com antecedência. Os editores que poderiam se pronunciar sobre a expectativa do lançamento - inclusive sobre as questões jurídicas que envolvem a obra - estão fora do País.





