Lembranças da Buenos Aires de Evita
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de abril de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Kraw PenasJuril Carnasciali: Eu andava pelos bairros, perguntava ao povo sobre a primeira-dama e todos falavam dela com carinhoRevista Guaíra. Este era o nome de uma revista importante que foi editada em Curitiba nos anos 40 e 50, época em que a histórica O Cruzeiro vendia semanalmente cifras tão altas que jamais foram alcançadas. A publicação paranaense seguia os mesmos moldes, trazia um leque de assuntos variados, que quase 50 anos depois ainda reflete em suas páginas o peso de um trabalho consistente.
Provavelmente pela qualidade editorial da Revista Guaíra o governo argentino de Juan Carlos Perón convidou a jornalista Juril Carnasciali para visitar as obras da Fundação e Ajuda Social, que eram a vida de Evita Perón. Foi através dessas ações de assistência ao povo que nasceu o mito e a santidade da mulher que morreria jovem, vitimada pelo câncer.
O convite chegou no final de 1950, mas como Juril lecionava num colégio e respondia pelas funções de jornalista e diretora da Guaíra, não houve condições de atender prontamente à gentileza. A viagem realizou-se somente em dezembro, mas a estas alturas Evita estava seriamente enferma e não pôde recepcionar Juril, como estava previsto.
As obras Na visita à cidade, a jornalista conheceu as famosas obras sociais. Visitamos a Cidade Infantil, a mais perfeita e bonita cidade, planejada para educar as crianças, com escolas oficinas, áreas de lazer, brinquedos infantis, tudo controlado e administrado por uma Prefeitura onde crianças orientavam os menores.
Esteve no lar especialmente criado para empregadas e operárias, que tinha desde salão de beleza a dormitórios e restaurante. Havia uma construção idêntica para os homens.
No Hogar de Transito ficavam as pessoas que chegavam a Buenos Aires à procura de colocação, e não tinham onde morar. Não era um albergue como se vê por aí. Havia todo conforto e atenções, até conseguirem um emprego ou lugar para viver, relata Juril.
O filme Quarenta e sete anos depois a responsável por uma página social domingueira no jornal Gazeta do Povo, assistiu ao filme Evita. Gostou do desempenho de Madonna. A fita retrata exatamente o que aconteceu na época - duas correntes humanas se alternando a favor e contra a figura aparentemente frágil da mulher que saiu do nada para transformar-se no símbolo do poder.
De um lado os pobres, os descamisados - como Evita referia-se aos seus protegidos - enalteciam-lhe e a colocavam no pedestal dos mitos. De outro a alta burguesia esnobando a ex-dançarina, mulher nascida sem berço. Ela nunca foi aceita pela alta sociedade, diz Juril.
Como um contraponto ao preconceito, a repórter ouvia os elogios que vinham das ruas. Eu andava pelos bairros, perguntava ao povo sobre a primeira-dama e todos falavam dela com carinho. Era idolatrada como um anjo, apesar do luxo e da riqueza de suas vestes e suas jóias.


