Existe uma época em que a única coisa que importa é brincar. As preocupações são poucas, somos fortes ou fracos, corajosos ou covardes, hábeis ou desajeitados. Beleza não faz parte dos dramas, as mães se encarregam dos beijos e elogios. Essa época é chamada de infância.
Existe outra época em que uma das coisas mais importante é o corpo, a aparência. As brincadeiras cedem lugar aos jogos do desejo e a sedução. A beleza torna-se um instrumento de conquista. O drama começa quando os beijos e elogios das mães deixam de fazer sentido. São insuficientes e contraditórios.
Essa época é chamada de adolescência. Para ser mais exato, o início da adolescência. Aquilo que médicos e professores nomeiam displicentemente de ''ebulição dos hormônios''.
O processo de sair de uma época e cair em outra dá origem a uma coleção de inseguranças. Parece que nunca estamos contentes em relação aquilo que somos, com aquilo que aparentamos ser, com aquilo que desejamos ser, etc, etc.
Os jornalistas franceses Véronique Lê Jeune e Philippe Eliakim resolveram oferecer alguns toques ao pessoal que atravessa esse processo. Escreveram ''Eu Não Sou Assim!'', livro lançado pela Editora Ática que procura informar que, apesar de tudo, os dramas passam. Mesmo provocando vários machucados.
Partindo de exemplos do cotidiano, e com bom humor, Véronique e Philippe procuram revelar que insegurança, vergonha e insatisfação com o próprio corpo, trata-se de algo absolutamente normal. E entender os motivos que geram esses sentimentos pode ser bem interessante.
O corpo pode ser gordo, magro, ter nariz grande, seios pequenos, orelha grande, perna fina, espinha, cabelo indomável, cicatrizes, bunda chata, uma perna mais curta que a outra, mancha na pele, dente torto, etc. A lista é enorme e dualista. Mas em qualquer caso, a auto-estima pode deixar o problema menor do que ele parece ser.
Nesse sentido, ''Eu Não Sou Assim!'' pode ser considerado um livro criado para levantar a auto-estima dos adolescentes. O interessante é que os autores vão mais além. Colocam o dedo em várias feridas que passam despercebidas, encobertas por desculpas esfarrapadas.
Uma das abordagens apresentadas, por exemplo, está o fato do espelho não ser apenas aquele negócio de vidro que fica do banheiro em cima do lavatório. Espelho também é o outro, aquele que é desejado, ou a própria turma, a necessidade de convivência, a aceitação.
A roupa é outro elemento importante. Ela tanto pode ser usada para realçar o ''belo'' do corpo como para ocultar o ''feio'' do mesmo corpo. Assim, a roupa pode ser ''boa'' quando revela aquilo que pode ser admirado, como também pode ser ''ótima'' quando esconde aquilo que pode ser menosprezado.
''Eu Não Sou Assim!'' oferece uma série de toques interessantes nesse sentido. Gera um monte de pensamentos e reflexões. E revela, de maneira simples, que desejar o ideal é totalmente natural. Mas o ideal é justamente aquilo que nunca teremos. Isso porque o ideal é apenas a idéia de uma idéia.
Você já viu alguém colocar as mãos do corpo de uma idéia?
Serviço:

- ''Eu Não Sou Assim! Como Encarar as Mudanças do Corpo na Adolescência'', de Véronique Le Jenine e Philippe Eliakim, Editora Ática, ilustrações de Princess H, consultoria brasileira de Francisco B. Assumpção Jr, tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves, coleção Universo Jovem, 104 páginas, R$ 19,90.

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