Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Vou confessar uma coisa, mas não conta para ninguém. A primeira vez que vi um palhaço, chorei de medo. Não só chorei como berrei, agarrei minha mãe desesperado, esgoelando. Aquele homem de cara pintada parecia um monstro. E quando chegou perto de mim, achei que seria devorado naquele instante.
Isso aconteceu num circo. Eu devia ter uns quatro anos. De dois em dois minutos perguntava: ‘‘Não vai aparecer o elefante?’’.
  Meu irmão mais velho já estava irritado de ouvir a mesma pergunta trezentas vezes. Quando comecei a berrar de medo do palhaço ele disparou: ‘‘É pra rir, seu besta, não pra chorar!’’
  Então reparei que todo mundo estava rindo e eu chorando. Todos riam de maneira divertida e eu chorava com convicção. Para mim era algo inexplicável, não havia graça nenhuma. Estava com medo daquele monstro.
  A segunda vez que vi um palhaço, não chorei. Mas também não dei nenhuma risada. Estava desconfiado. Depois da terceira vez, já gargalhava como todo mundo.
  Se você também já chorou ao ver um palhaço, fique tranqüilo, pois muita criança chora. Também berra, grita e esperneia. Depois dá risada e não consegue entender o motivo do choro anterior.
  Conhecer o universo da arte do palhaço pode ajudar nesse entendimento. O entendimento do riso, que geralmente não possui nenhuma explicação aparente.
  A Editora Companhia das Letrinhas acaba de lançar um livro que pode ajudar nesse sentido. ‘‘O Livro do Palhaço’’, obra infanto-juvenil de autoria do escritor e palhaço Cláudio Thebas, apresenta a arte do palhaço através dos tempos. Tudo a partir da experiência pessoal de Thebas através da profissão do artista do riso.
  Em ‘‘O Livro do Palhaço’’, Thebas revela como a arte do riso nasceu, as transformações que teve ao longo dos séculos, os tipos de palhaços existentes, os mais conhecidos, os principais artistas no Brasil e no mundo, etc.
  Também mostra que palhaço não é apenas aquele ‘‘homem de cara pintada e nariz vermelho.’’ Aquele ‘‘monstro’’ que vi pela primeira vez, lembra? O bobo da corte, o bufão e o arlequim, por exemplo, também eram palhaços. Sem falar em Gordo e Magro, Três Patetas, Charles Chaplin, Irmão Marx, Oscarito, Grande Otelo, Mazzaropi e Os Trapalhões.
  É bom lembrar que todo humorista tem um pouquinho de palhaço. Mas a tradicional arte do palhaço segue princípios próprios. Existe toda uma técnica e um trabalho para o palhaço não ser um mero idiota, mas um simples palhaço.
  ‘‘O Livro do Palhaço’’ é a primeira obra publicada no país, direcionada às crianças, que descreve esse universo. E faz isso de modo a revelar não apenas o riso, mas o que existe por trás dele.
  Não conta para ninguém, mas sei de um monte de gente que tinha medo do palhaço, que chorava feito bezerro desmamado. O José, a Cristina, o Sérgio, o Fábio, a Annai, o Francisco e muito mais. A lista é enorme, mas não conta para ninguém. O engraçado é que hoje eles morrem de rir.

Serviço:
‘‘O Livro do Palhaço’’ de Cláudio Thebas, ilustrações de Marcelo Cipis, Editora Companhia das Letrinhas, Coleção Profissões, 96 páginas, R$ 31,00.

mockup