LEITURINHA -Os dias mais difíceis do mundo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de junho de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Existem dias em que nada dá certo. Tudo o que tentamos fazer dá errado. Todo mundo começa a brigar com a gente. O que queremos não acontece. Nesses momentos, sentimos vontade de entrar embaixo da cama e ficar lá, escondido do mundo.
Lucie estava num desses dias quando resolveu fazer algo e resolver o drama. Em vez de se esconder embaixo da cama, optou por fazer algo diferente. Com oito anos de idades, resolveu fazer greve.
Para Lucie, os adultos faziam greve quando não estavam contentes com alguma coisa. Era uma maneira dos adultos mostrarem, para outros adultos, que não estavam satisfeitos. Que estavam descontentes
A lista de insatisfação de Lucie não era pequena. Não podia passar as férias na casa da avó falecida recentemente. O pai havia se casado novamente. Tinha um novo irmão que só chorava. Não tinha a mãe para conversar. Enfim, uma montanha de problemas familiares.
Para deixar claro que não estava contente com nada disso, Lucie dá início a um tipo de greve que ela mesmo inventa: a greve de vida. Esse tipo greve, de acordo com a garota, consiste em não fazer nada. Basta trancar-se no quarto, deitar na cama e ficar olhando para o teto. Não conversar com ninguém. Não fazer isso nem aquilo. Esperar que os adultos percebam que devem mudar as coisas para que o grevista sinta-se satisfeito e contente.
A história de Lucie é narrada pela escritora francesa Amélie Couture em Greve de Vida, livro lançado pela Editora Companhia das Letrinhas com ilustrações de Marc Boutavant. A obra é narrada pela voz da própria Lucie em sua travessia por uma situação difícil, devidamente acentuada pela sua fragilidade enquanto criança.
Em sua greve de vida, Lucie não deseja deixar de viver. Deseja que a vida seja diferente. Que a vida seja do jeito que ela quer, sem dificuldades, sem problemas. Algo natural no campo das idéias, mas muito difícil de acontecer no mundo real.
No percurso de sua greve, Lucie percebe que as mudanças também podem partir dela, e não apenas das outras pessoas. Esse aprendizado é marcado por um punhado de erros e de acertos. Coisas que entendemos depois que as coisas voltam ao normal. Depois dos dias em que tudo dá errado. Após os dias em que o mundo briga com a gente.
SERVIÇO
- Greve de Vida de Amélie Couture, ilustrações de Marc Boutavant, Editora Companhia das Letrinhas, 64 páginas, R$ 19,50.


