LEITURINHA - Vida dura sob a terra
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de setembro de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Você já deve ter ouvido seu irmão, na hora do almoço, dizer alguma coisa como: ''Socorro, tem uma cenoura na minha batata frita!''. Ou mesmo algo semelhante a: ''Que nojo, tem um pedaço de abóbora no meu miojo!''.
O que você nunca ouviu foi alguém inconformado gritar algo como: ''Meu deus, tem um cabelo na minha terra!''. Você nunca ouviu porque essa frase saiu da boca de um filhote de minhoca, personagem de um livro criado pelo cartunista norte-americano Gary Larson.
Publicado tempos atrás pela Companhia das Letrinhas, ''Tem um Cabelo na Minha Terra!'' é uma excêntrica e bem-humorada aula de ecologia. A idéia é quebrar a visão romantizada do mundo natural apresentada às crianças, onde tudo é lindo, fofo e maravilhoso.
Professor de ecologia e biologia, Gary Larson oferece um visão abrangente da natureza, onde tudo está integrado. Faz o alerta de que não basta as pessoas terem ''boas intenções ecológicas'', é necessário entender o mundo natural de maneira global, sem preconceitos e com a maior quantidade de informações possível.
O livro apresenta a história de um filhote de minhoca que, ao encontrar um cabelo no prato de terra do almoço, se revolta contra sua condição de minhoca: o último dos últimos na cadeia alimentar.
Para tentar acalmar a fúria do filho, o pai resolve contar-lhe uma história. Não aquelas clássicas histórias de pescador, onde as minhocas são friamente espetadas em anzóis, mas um quase conto de fadas. O conto de uma linda donzela amante da natureza chamada Benedita.
A saltitante donzela percorria a floresta se encantando com bichos e plantas. Em sua tentativa de acariciar e ajudar os bichos, apenas tornava as coisas piores do que eram. Isso porque ela não sabia como funcionava a natureza, onde nem tudo é lindo e fofinho. Não sabia que cada habitante da terra possui sua própria condição e nenhum deve ser desmerecido, nem mesmo os feios e gosmentos.
A ignorância de Benedita não estava apenas em seus olhos, mas também em suas ações. Ao encontrar, por exemplo, uma tartaruga próxima a um lago, procurava ajudá-la a voltar para a casa jogando-a na água. A donzela não sabia que não se tratava de uma tartaruga, mas de um cágado, uma espécie que não sabe nadar.
Após uma sucessão de exemplos, o filhote de minhoca passou a entender sua importância, como último membro da cadeia alimentar, através das considerações do pai. Uma minhoca experiente: ''Benedita amava a natureza. Mas amar a natureza não é o mesmo que entender a natureza. E Benedita não só não entendia as coisas que via - rebaixando alguns animais e romantizando outros - como também não entendia sua própria conexão com elas. Ah, as conexões, filho. Essa era a chave fatídica que Benedita não possuía, a chave para a compreensão do mundo natural.''
Em ''Tem um Cabelo na Minha Terra!'', Gary Larson utiliza um tipo de humor irônico raramente encontrado nos livros infantis. Faz isso para revelar os equívocos da visão romantizada do mundo natural que geralmente os adultos apresentam.
Serviço:
''Tem um Cabelo na Minha Terra - Uma História de Minhoca'', texto e ilustrações de Gary Larson, Editora Companhia das Letrinhas, prefácio de Edward O. Wilson, tradução de Heloisa Jahn, 64 páginas, R$ 29,00.


