Leiturinha - Saudáveis maluquices de criança
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de agosto de 2002
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Ela é a menina fora do comum. É a criança mais forte do mundo, capaz de carregar um elefante em cada braço. Usa sapatos 10 números acima do seu. Gosta de regar o jardim em dia de chuva e engolir ovos inteiros, com casca e tudo. Geralmente dorme com os pés no travesseiro e toma banho de roupa. Possui como animais de estimação um macaco e um cavalo.
Ela tem nove anos de idade e nunca frequentou a escola. Costura suas próprias roupas e faz sua própria comida. Dorme na hora que bem entender e inventa as brincadeira mais malucas. Mora sozinha, sem pai, nem mãe. Seu grande sonho é ser pirata e percorrer os sete mares fazendo estripulias.
Estamos falando de Píppi Meialonga, a incrível personagem criada pela escritor sueca Astrid Linrgren (1907 - 2002) muito tempo atrás - em 1945. Apesar desse tempo todo de existência, Píppi permanece com seu frescor natural e completamente maluquinha. Uma menina capaz de dar nó em pingo d'água e transformar as tarefas mais encardidas em brincadeira divertidas.
A Companhia das Letrinhas está publicando o segundo volume com suas inusitadas aventuras. Depois de ''Píppi Meialonga'', lançado no ano passado, agora é a vez de ''Píppi a Bordo'' - também com ilustrações de Michael Chesworth.
Píppi é uma garota que vive como toda criança gostaria de viver: em completa liberdade. Criada a bordo de um navio, passou a morar sozinha numa pequena cidade após perder o pai num naufrágio. Com uma mala cheia de moedas de ouro, passa a não depender de ninguém, de nenhum adulto. Faz tudo o que tem vontade, na hora que acha melhor, sem nenhum marmanjo dando ordens para isso ou aquilo.
Em ''Píppi a Bordo'' Astrid Lidgren narra suas mirabolantes proezas dessa menina maluquinha ao lado dos amigos Tom e Aninha, seus vizinhos. Como pessoa nada convencional, ela banha com surpresas e alegria todas as crianças da cidade - que levam uma vida muito diferente da sua. E mesmo com todas as diferenças, a harmonia prevalece graças à ausência de preconceitos de ambos os lados.
Nesse novo volume, Píppi revela seu lado emocional. Isso porque num belo dia seu pai, até então desaparecido, surge para buscá-la. Apesar da felicidade em reencontrar o pai, que tornou-se rei numa ilha de canibais, seu coração é abalado pela possibilidade de perder os amigos que encontrou, bem como de perder a estabilidade de viver numa casa de verdade. Assim, terá que tomar uma decisão delicada, escolher a melhor maneira de viver.
Seja em ''Píppi a Bordo'' ou ''Píppi Meialonga'' (que acabou virando desenho animado) a autora trabalha com as maluquices lúdicas que correm pela cabeça de toda e qualquer criança. E que a personagem coloca em prática sem pensar duas vezes. Nessa atmosfera divertida, não realiza nenhum juízo de valores, apenas apresenta a fantasia e a vida como ela poderia ser se as convenções não fossem como são - tão determinantes. Mas, na verdade, Astrid deixa evidente que Píppi e as outras crianças se relacionam em constante movimento de troca. De uma lado Píppi oferece liberdade e fantasia a elas. De outro, elas oferecem realidade e limites a Píppi. Tudo num mesmo aprendizado sobre a vida.
Serviço: ''Píppi a Bordo'' de Astrid Lindgren, ilustrações de Michael Chesworth, Editora Companhia das Letrinhas, 160 páginas, R$ 26,00.


