LEITURINHA - Saci gente boa
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de outubro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Sempre duvidei da idéia de que o Saci era malvado. Podia aprontar alguma arte aqui, outra ali, mas não por maldade. Coisas de um duende brincalhão.
Certo dia, tive certeza que além de não ser malvado, o Saci realiza boas ações. Aconteceu quando eu estava pescando na beira do rio, sozinho no meio do mato. Num momento de descuido, o anzol entrou em minha mão. Tentei tirá-lo, de várias formas, mas não consegui. Doía bastante. Quando mais tentava tirar o anzol, mais estrago ele vazia.
Tinha 10 anos de idade e comecei a chorar feito bebê de fraldas. Então, ao meu lado apareceu um saci. Tinha uns 40 centímetros de altura. Num gesto rápido, retirou o anzol da minha mão sem provocar nenhuma dor. Antes de desaparecer, soltou um 'cuidado mané''. Você pode não acreditar, mas aconteceu de verdade. Saci é gente boa.
O ilustrador mineiro Nelson Cruz reforça essa idéia em ''O Caso do Saci'', livro lançado pela Cosac & Naify Edições. Ele narra a história de duas crianças, os irmãos Manfredinho e Andrea, que pedem a ajuda do Saci para encontrar o dinheiro do salário que o pai perdeu. Um verdadeiro drama para uma família humilde.
Acontece que as crianças não sabem da verdade. Na realidade o salário do pai foi ''surrupiado'' pelos malandros do bairro pobre onde moram. Espalhando o medo, os malandros extorquem as economias dos moradores em ''troca'' de segurança.
Vendo preocupação e tristeza no rosto do pai, Manfredinho e Andrea resolvem ajudá-lo. Cansados de ouvirem histórias de que o Saci possui o hábito de fazer desaparecer objetos das pessoas, as crianças exigem que o duende de uma perna só devolva aquilo que sumiu do bolso do pai.
Acusado de uma maldade que não cometeu, o Saci resolve ajudar a encontrar o dinheiro perdido (que na verdade está na carteira dos malandros). Graças a sua capacidade de ficar invisível, o Saci torna-se um detetive de primeira qualidade.
Claro que o pai e a mãe de Manfredinho e Andrea não acreditam na história do grande ''Saci Detetive''. Mas isso não impede que as crianças sigam em frente com os olhos inundados de imaginação. ''O Caso do Saci'' resgata, de maneira surpreendente, uma das figuras mais populares do folclore brasileiro a partir do encontro da realidade com a fantasia.
Como você sabe, a melhor maneira de convencer o Saci a realizar uma boa ação é ter nas mãos seu gorro vermelho. Mas é arriscado tirar seu gorro, é como tirar osso da boca de cachorro. Mesmo assim vale a pena arriscar, afinal Saci não morde.
Serviço:
- ''O Caso do Saci'', texto e ilustrações de Nelson Cruz, 48 páginas, capa dura, R$ 36,00.


