LEITURINHA - Sabedoria de leão
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de outubro de 2003
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Sempre precisamos escolher entre uma coisa ou outra. Na sorveteria, temos que escolher entre um picolé de limão ou um de groselha. Na hora de brincar, temos que escolher entre esconde-esconde ou futebol.
Quando ainda somos pequenos, grande parte das escolhas não são feitas diretamente por nós. Quando, por exemplo, pensamos em escolher entre brincar com facas ou cacos de vidro, sempre aparece um adulto que escolhe por nós. E com razão, escolhe uma outra coisa.
Mas existe uma escolha que parece ser a maior de todas: escolher aquilo que queremos ser. Uma escolha nada fácil, mas que precisa ser feita apenas por nós, de acordo com aquilo que pensamos e aquilo que sentimos. Algo que ninguém deve, e não pode, fazer por nós.
Leocárdio era um leão que precisou fazer essa escolha. Como grande parte das pessoas, foi vivendo o que aparecia pela frente, experimentando todo tipo de coisa, até chegar a hora da escolha crucial. E a decisão que tomou foi reveladora. Tanto para ele, quanto para quem conhece sua história.
A história de Leocárdio está em Leocárdio - O Leão Que Mandava Bala, livro infantil escrito e ilustrado pelo cartunista norte-americano Shel Silverstein (1930 - 1999) que acaba de ser publicado pela Cosac & Naify Edições. Trata-se de uma fábula divertida e, ao mesmo tempo, melancólica, que fala da vida como se falasse do aprendizado do crescimento.
Leocárdio é um jovem leão que vive na tranqüilidade na floresta. Um belo dia aparece um caçador no lugar e, segundo as orientações dos leões mais velhos e assustados, todos devem fugir. Mas, movido pela curiosidade, Leocárdio enfrenta o caçador e, percebendo que fatalmente será morto, devora o homem.
Achando interessante a arma deixada pelo caçador, começa a usá-la como divertimento. Com o tempo, experimentando tiro ao alvo, torna-se um exímio atirador. E para conseguir munição e novas armas, passa a devorar caçadores que se aventuram pela floresta para apropriar-se de seus instrumentos. E claro, para se defender e defender outros animais, utilizando as armas do inimigo. Assim, torna-se o leão mais temível dos leões, um atirador invejado.
Um belo dia, aparece na floresta um dono de circo que oferece a Leocárdio uma vida de sucesso, de poder e dinheiro. Atordoado com as promessas e seduzido pela possibilidade de viver coisas novas e diferentes, ele aceita a proposta de ser atração de circo de muda-se para a cidade, o mundo dos homens.
Leocárdio então precisa se ajustar a uma nova vida, onde deve seguir os padrões dos humanos. Coisas como andar ereto, cortar a juba, manter as unhas limpas e aparadas, usar roupa, dormir em cama, tomar banho, comer com garfo e outras coisas mais. No circo torna-se o ídolo de multidões. Passa a fazer parte das capas das revistas, dos programas de televisão, enfim, atinge a fama, abandonando o leão-animal para converter-se em leão-humano, que todos admiram o cobrem de louvores.
Com o tempo, Leocárdio, mesmo com a boa vida que leva entre os homens, é abatido por uma tristeza avassaladora. A mesma sensação que sentimos quando a vida que levamos perde o sentido. Tentando fugir desse estado, aceita participar de uma caçada como se fosse um homem, e não um leão, pelas savanas da África.
Empunhando sua arma, Leocárdio se vê diante de um leão nativo e quando está prestes a apertar o gatilho, é reconhecido pelo alvo como um igual. A partir desse instante, ou dessa revelação, o herói da história terá que escolher entre ser leão e ser homem. Uma escolha carregada de simbolismo.
Creio que não é necessário contar o desdobramento da história de Leocárdio. Basta dizer que a escolha que ele faz é de dar um nó no coração - talvez para fazer com que nuvens de dissipem, talvez para encontrar-se consigo mesmo. Não há final feliz, nem final ingênuo. Isso faz do livro de Shel Silverstein um elogio aos riscos - sejam bons ou maus - presentes em qualquer escolha.
Pode ser fácil escolher entre um picolé de groselha ou um de limão. Como também pode ser fácil escolher entre brincar com cacos de vidro ou facas. Mas sempre há alguma coisa que pode ser chamada de angústia da escolha. Aquilo que alguns filósofos chamam de liberdade. E que alguns leões, como Leocárdio, procuram chamar de vida. Algo simples como procurar ser aquilo que se é.
SERVIÇO
Leocárdio - O Leão Que Mandava Bala de Shel Silverstein, tradução de Antonio Guimarães. Cosac & Naify Edições (fone 11/3218-1444), 112 páginas, capa dura, R$ 27,00.


