LEITURINHA - Pedrinhas de nostalgia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de novembro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Existe algum lugar onde podemos guardar todas as lembranças? Um lugar onde a memória assume a forma de um parque de diversões? Um parque onde todo mundo pode andar nos brinquedos quantas vezes desejar, sem fila nem ingresso. Existe?
Para a pequena Laurinha existia. E o lugar parecia realmente um parque, e cabia nas mãos. Na verdade ela inventou um jeito de guardar suas lembranças bem pertinho. E quando desejava relembrar alguma, era só esticar a mão.
Tudo começou no dia em que Laurinha viu uma árvore nascendo, um filhote de árvore nascendo bem no meio do quintal. Ficou tão encantada que resolveu guardar aquela lembrança para o resto da vida.
Para isso arrumou um jeito bacana. Guardou uma pedrinha bem pequena que representava a lembrança da árvore nascendo. Assim, toda vez que desejava lembrar o filhote de árvore, era só pegar a pedrinha e a memória abria as janelas.
Laurinha foi além. Para cada lembrança marcante, guardava uma pedrinha dentro de um jarro.
Uma pedrinha para o bolo de chocolate de aniversário, outra para a gatinha que achou na rua. Uma pedrinha para um braço quebrado, outra para o dia em que seu quarto foi pintado de azul. Uma pedrinha para o dia em que conheceu o mar, outra para o dia em que foi queimada por uma taturana.
Dessa maneira, ao longo dos anos, Laurinha inventou aquilo que chamou de ''Guardador de Lembranças''.
A história de Laurinha e seu ''Guardador de Lembranças'' é narrada pelo escritor Cláudio Galperin em ''O Jarro da Memória'', livro infantil lançado pela Editora Cosac Naify. As ilustrações, de Laura Teixeira, acompanham a viagem da garotinha pela mágica da nostalgia.
O detalhe de ''O Jarro da Memória'' é que Laurinha conserva a prática de guardar pedrinhas ao longo de toda a vida. Quando já está velhinha, e virou a ''Vó Laura'', o jarro está repleto de lembranças. Um recipiente que abriga sua particular ''história dos sentimentos'', ou, quem sabe, a ''história das sensações de uma vida''.
Como todo mundo sabe, jarros de barro podem se quebrar. Assim como copos, garrafas, brinquedos e relógios. Acho que, nestas últimas palavras, é possível entender o que aconteceu com o jarro da Laurinha.
Todo mundo possui um jarro parecido com o de Laurinha. Geralmente ele está dentro da cabeça ou dento do corpo como um todo. Cuidadosamente guardado em algum lugar, cheio de pedrinhas. E esse é o tipo de jarro mais difícil de quebrar.
Serviço:''O Jarro da Memória'' de Cláudio Galperin, ilustrações de Laura Teixeira, Editora Cosac Naify, 40 páginas, R$ 29,90.


