LEITURINHA - Pedalada do absurdo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A terça-feira já havia terminado, mas ainda não era quarta-feira. Era quase quarta, mas a segunda ainda segurava o pé da terça. O incrível era que a quarta já estava de olho no cabelo da quinta que começou a crescer antes da sexta.
Foi exatamente neste dia que os irmãos Embley e Yewbert, entre uma briga e outra, encontram uma bicicleta desacompanhada. Completamente sozinha, sem chapéu, sem suspensório. Quase nua. Somente pneu, quadro, selim, guidão. E dois quilos de vento dentro da cabeça.
Depois de mais uma briga, irmão e irmã montam na bicicleta e seguem em frente. Sem destino. Sem freio. Sem noção. Sem direção. Pelo caminho encontram um pássaro que resmungava, uma plantação de rabanetes sem rabanetes, uma escuridão onde não se ouvia nada, uma tempestade de raios assassinos, um jacaré magrelo e outras coisas mais.
As aventuras das duas crianças, entupidas de nonsense, estão em "A Bicicleta Epiplética" primeiro livro do desenhista norte-americano Edward Gorey (1925 2000) publicado no Brasil. Lançado pela editora Cosac Naify, a obra infantil é um delicioso exercício do absurdo longe das garras da razão.
Gorey segue a tradição de autores como Lewis Carroll (1832 1898) e Edward Lear (1812 1888). Sua grande particularidade é inserir, na narrativa, uma atmosfera sinistra e elementos góticos. Nada de ursinhos fofinhos brincando numa banheira de nuvens sob um céu de arco-íris.
O absurdo e o humor presentes em "A Bicicleta Epiplética" colocam o tempo como uma manifestação da realidade em forma de rocha. Uma pedra que entra no sapato da infância em algum dia de alguma semana. Mesmo quando a terça-feira já terminou e quarta-feira ainda não existe.
Serviço:
"A Bicicleta Epiplética"
Autor Edward Gorey
Editora Cosac Naify
Tradução Alexandre Barbosa de Souza e Eduardo Verderame
Páginas 64 (capa dura)
Quanto R$ 35


