Eu nunca vi. Mas muita gente na escola viu. Ou pelo menos disse que viu. Ela aparecia geralmente no banheiro das meninas, com algodão no nariz e sua pele branca e gelada. Era um berreiro assustador, gritos de pânico e um frio na espinha. Era a Loira do Banheiro, um fantasma que surgia do além para atormentar o colégio.
Acho que poucos realmente viram a tal Loira do Banheiro, mas muitos sentiram medo só de ouvirem as histórias que a cercavam. Histórias sobrenaturais é o que não faltam Brasil afora. Elas não aparecem nos livros, mas todos mundo ouviram um punhado delas. E sentiu um medo quase gostoso de arrepiar a pele.
A escritora Heloisa Prieto reuniu algumas dessa histórias em ''Rotas Fantásticas'', livro infanto-juvenil lançado pela Editora FTD com ilustrações de Daniel Kondo. O volume reúne 10 relatos de deixarem o cabelo em pé. Algumas dão um breve medinho, outras não devem ser lidas à noite, antes de dormir.
Heloisa reconta essas populares histórias, chamadas de lendas urbanas, do ponto de vista de alguém que as viveu ou presenciou os fatos. Pessoas que como eu ou você, em determinada situação, encontrou uma assombração pela frente mesmo sem acreditar nessas coisas. Ou talvez, quem sabe, imaginou coisas diante do medo.
E já que o assunto é medo, esse sentimento sedutor, vamos direto aos dois relatos mais interessantes, aqueles que podem fazem muita gente molhar as calças. O primeiro é ''Vovó Maria'', história sobre o fantasma de uma velhinha que apavora os motoristas numa estrada do interior de São Paulo. Geralmente ela aparece no meio da pista, durante a madrugada, e gruda na cabine dos caminhões, pegando uma carona e atormentando motoristas. Sua aparência é medonha, desdentada, desgrenhada e tudo mais.
O segundo relato, ''O Bebê Vampiro'', é uma história do interior do Paraná. Fala sobre a existência de um recém-nascido que precisa se alimentar de leite misturado com sangue de galinha. Filho de uma mãe humana e um pai vampiro, ele não pode provar sangue humano sob o risco de se tornar um homem das trevas como o pai. Mas o caso é mais complicado do que parece. É de deixar os pêlos do braço em pé.
Eu, por exemplo, nunca acreditei em fantasmas. Isso até o dia em que vi um. Vou contar como foi. Anos atrás, numa noite fria de inverno, eu estava voltando para casa sozinho. As ruas estavam desertas, nem carros, nem pessoas. Devia ser três da manhã, eu caminhava pela calçada ao lado do Cemitério São Pedro. Então, de repente, um braço atravessou o muro, na minha frente. Ouvi uma voz cavernosa dizer: ''Me dá uma moeda''.
Como estava meio distraído, nem me dei conta da situação. Como já estava com as mãos nos bolsos, peguei uma moeda e depositei na palma daquela mão pálida e misteriosa. Ela então se recolheu, atravessando muro de volta. Aí caiu a ficha: eu estava do lado de um cemitério. Senti um arrepio assustador, um frio na espinha. Atravessei rapidamente a rua e comecei a correr. Cheguei em casa banhado em suor.
Passei dias pensando naquilo, tentando encontrar alguma explicação. Então decidi fazer uma visita ao cemitério, de dia é claro. Na mesma região do muro onde a mão havia aparecido, encontrei um túmulo com um punhado de moedas empilhadas num canto. Tudo bem arrumado, meio escondido. Senti medo. Medo de verdade. A partir daquele dia, nunca mais passei por aquela calçada ao lado do cemitério sem uma moeda no bolso.


Serviço:
''Rotas Fantásticas'' de Heloisa Prieto, ilustrações de Daniel Kondo, Editora FTD, 123 páginas, R$ 12,10.

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