Aninha nunca tinha visto um sapo lavando o pé. Também nunca tinha sentido o cheiro de chulé de sapo.
Isso não impedia que Aninha passasse os manhãs cantando: ''O sapo não lava o pé/ Não lava porque não quer/ Ele mora lá na lagoa/ Não lava o pé/ Porque não quer/ Mas que chulé!''
Aninha nunca tinha visto um sapo dentro de um saco. Bem como nunca tinha visto um sapo batendo papo com ninguém.
Isso não impedia que Aninha passasse as tardes cantando: ''Um sapo dentro do saco/ O saco com o sapo dentro/ O sapo batendo o papo/ E o papo cheio de vento.''
Aninha não estava nem um pouco interessada se sapo tinha chulé, se saco tinha sapo dentro. O que realmente interessava era que a brincadeira era divertida.
Aninha tinha toda razão.
As músicas que ela gostava de cantar são chamadas parlendas. Versos carregados de rimas de autoria anônima. Ninguém sabe quem criou essas pequenas histórias transmitidas de mãe para filha, de avô para neto, de vizinha para vizinho, de amigo para amiga.
Parlendas são poemas que não nasceram em livros. Pelo contrário, nasceram em brincadeira divertidas, de maneira despretensiosa e nem um pouco preocupadas em fazer sentido. Foram guardadas na memória, não em folhas de papel.
Começaram a fazer parte dos livros há pouco tempo. A Editora Companhia das Letrinhas, por exemplo, acaba de lançar ''O Jogo da Parlenda'', livro da escritora Heloisa Prieto recheada de versos divertidos.
Com ilustrações de Spacca, traz versos clássicos como o famoso ''Um, dois, feijão com arroz/ Três, quatro, feijão no prato...''. Também traz versos alterados pelo tempo em diferentes versões. Isso porque existem várias versões de uma mesma parlenda, dependendo da região geográfica brasileira e da época.
Por isso, se você encontrar versões diferentes de ''Hoje é domingo/ Pé de cachimbo/ Cachimbo é de barro/ Bate no jarro/ O jarro é de ouro/ Bate no touro/ O touro é valente/ Bate na gente/ A gente é fraca / Cai no buraco/ O buraco é fundo/ Acabou-se o mundo.'' não fique preocupado.
A melhor versão de uma parlenda é aquela que você sabe. Do jeito que você sabe. Lá dentro da memória.
Aninha, a menininha que gostava de histórias com sapo, cresceu. Virou gente grande. Hoje tem uma filhinha que vive cantando: ''Em cima do piano/ Tem um copo de veneno / Quem bebeu morreu.''
Já vou avisando, o culpado não fui eu.

Serviço:
- O Jogo da Parlenda, de Heloisa Prieto, ilustrações de Spacca, Editora Companhia das Letrinhas, 48 páginas, R$ 19,50.

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