Imagine que você está caminhando por uma rua calma e tranquila. De repente, ao olhar para o chão, você vê uma nota de 10 reais. Além da nota também vê, ao lado, uma bela pena de um pássaro. Os dois bem próximos, ali, no chão, esquecidos, sem dono, lado a lado, a nota e a pena.
Agora responda rápido: você curvaria o corpo e estenderia a mão para apanhar a nota de 10 reais ou a pena do pássaro?
Pode parece óbvio que a resposta mais provável aponte para o dinheiro. Mas as coisas podem ser bem diferentes. Por um lado, com a nota você pode comprar uma caixa de chicletes. Por outro, a pena pode fazer você sentir coisas que o chiclete é incapaz de fazer.
O valor das coisas sempre está repleto de relatividade. Em algumas situações, o valor simbólico é muito superior ao valor material. A escritora mineira Angela-Lago percorre esse assunto em seu novo livro infantil, ''João Felizardo - O Rei dos Negócios''.
Lançado pela Editora Cosac Naify, a obra é inspirada num dos clássicos contos de fadas dos Irmãos Grimm. Nele, a partir de um objeto de pequeno valor, o personagem consegue uma grande fortuna através de negócios bem-sucedidos e pautados pela esperteza. Torna-se um rico e poderoso rei.
A história de Angela-Lago segue por um caminho bem diferente. O personagem, João Felizardo, ao receber uma simples moeda de herança, sai mundo afora empreendendo uma viagem de negócios. Troca a moeda por um cavalo, em seguida troca o cavalo por um burro. Depois negocia o burro por uma cabra, depois com um porco e assim por diante.
Nesse processo, a fortuna que João acumula não é material. Trata-se de uma riqueza sutil. Uma riqueza regida não pelo valor material das coisas, mas pelo desapego a esse valor. Dessa maneira, João torna-se um negociante do desapego, onde qualquer sentimento de felicidade adquire mais importância do que o acumulo de bens materiais.
Você pode até começar a pensar que João, em seus negócios, está sempre perdendo, nunca ganhando. Podem achá-lo um bobão. Na verdade aquilo que João ganha não é material. A riqueza que ele conquista não pode ser guardada num banco. Ele conquista a riqueza do vento.
Com poucas palavras, Angela-Lago narra uma história onde a riqueza é apresentada como algum muito diferente do acumulo de dinheiro ou bens materiais. Com sutileza, desenha ama idéia da própria vida. Trata-se de uma história circular repleta de informações latentes. Para entender alguns sentidos, o leitor terá considerar a história como um todo.
Agora responda rápido: quanto vale o vento?

Serviço:
- Livro ''João Felizardo - O Rei dos Negócios'', texto e ilustrações de Angela-Lago. Editora Cosac Naify, 32 páginas, R$ 38,00.

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