LEITURINHA - O sorriso além do sentido
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de março de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Como é mesmo o nome daquele bicho cheio de penas que bota ovos? Gaulinha? Gaulilinha?
Como é mesmo? Gaulualinha? Galaulinha?
Como se chama mesmo? Gulerinha? Gauleialinha?
Como é mesmo? Guleilinha? Galilalinha?
Essa brincadeira com o esquecimento das palavras é um dos bem humorados jogos literários criados pelo escritor russo Daniil Kharms (1905 1942). Algumas de suas histórias estão reunidas em "Esqueci Como Se Chama", livro lançado pela editora Cosac Naify com ilustrações de Gonçalo Viana.
Integrante da vanguarda russa da primeira metade do século 20, Daniil Khamrs foi um especialista do nonsense e do absurdo. Sua obra, grande parte voltada ao público infantil, busca o sentido na falta de sentido.
Confusões engraçadas e soluções absurdas estão espalhadas pelas dez histórias que integram "Esqueci Como Se Chama". São contos de fadas malucos, fábulas com animais de outro mundo, narrativas afogadas no humor nonsense onde o vento faz a curva e abre o guarda-chuva.
Uma das histórias, por exemplo, narra as aventuras de dois garotos que passam os dias discordando um do outro. Os dois viajam da Rússia para o Brasil e depois não conseguem chegar a uma conclusão simples: mesmo pisando em solo brasileiro, estiveram ou não estiveram no país?
Em outra história, um martelo escapa das mãos de um ferreiro e realiza uma fantástica viagem, batendo em todo tipo de coisas numa sequência inacreditável. Depois, calmamente, retorna ao local de sua partida como se nada tivesse acontecido.
As narrativas de Daniil Kharms carregam um tipo de diversão onde um porco espinho é capaz de cultivar uma coleção de balões de aniversário. Ou onde um elefante é capaz de se esquecer o nome daquela coisa que frita os ovos que aquele bicho de penas bota. Qual o nome mesmo? Frigideixa? Frigagueira? Fritadeita? Frigiteila? Como é mesmo?


