Muita gente sonha em voar como passarinho. Olhar tudo lá de cima, percorrer qualquer lugar, em qualquer direção. Com meu irmão Antonio a coisa não era diferente, ele queria voar como passarinho. Vivia imaginando um jeito de voar.
No dia em que fazia sete anos, escondido de todos, subiu no telhado com um guarda-chuva na mão. Sua idéia era fazer do guarda-chuva uma espécie de pára-quedas e flutuar no ar. Antonio pulou do telhado, mas a coisa não funcionou como ele imaginava.
Além de quebrar a perna, levou uma tremenda bronca da mamãe. Só não levou uma surra porque estava com a perna doendo. A festa de aniversário foi no pronto-socorro do hospital. De convidados, só havia enfermeiros e enfermos.
Antonio iria adorar ler ''O Diário do Capitão Arsênio'' na cama do hospital, obra do ilustrador argentino Pablo Bernasconi que acaba de ser lançado pela Editora Girafinha. O livro traz relatos de Arsênio, um sujeito que séculos atrás inventou um punhado de máquinas de voar.
Nenhuma de suas invenções obteve sucesso, mas nem por isso Arsênio desistiu de tentar. Pernas e braços quebrados não reduziram sua imaginação e determinação. Seu sonho era maior que qualquer fratura de braço, perna ou cabeça.
As idéias de Arsênio eram completamente malucas. Perto dele, Antonio e seu fiel guarda-chuva ainda estavam no berçário. Suas invenções eram mirabolantes e carregadas de humor. Coisas voadoras indescritíveis como o Sacarrolhóptero, o Hamstertronic e o Submarinóptero.
O Capitão Arsênio e suas máquinas voadoras é uma invenção de Pablo Bernasconi, que nunca pulou do telhado com um guarda-chuva nas mãos. Mas aprendeu a pilotar avião com 16 anos de idade. Não desejou inventar nada, apenas escolheu a forma mais segura de voar.
O grande destaque de ''O Diário do Capitão Arsênio'' está nas ilustrações Pablo. As imagens voam próximas do virtuosismo, numa refinação técnica dedicada aos detalhes. Desenhos que podem ser lidos e relidos pela constante abundância de informações.
Talvez fosse possível dizer que Pablo Bernasconi transformou imaginação em imagem, Capitão Arsênio transformou sonho em determinação e Antonio transformou guarda-chuva em osso quebrado. Cada um com asas de passarinho.

Serviço: ''O Diário do Capitão Arsênio - A Máquina de Voar'', texto e ilustrações de Pablo Bernasconi. Editora Girafinha, tradução de Rafael Mantovani, 32 páginas, R$ 30,00.

mockup