LEITURINHA - O crepúsculo da infância
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A infância não é eterna. Em algum momento da vida das crianças ocorre uma transição. A infância fica para trás e o mundo fica mais sólido. Em alguns casos, o mundo fica mais áspero e duro.
Em "Naquele Verão", a escritora alemã Jutta Richter apresenta o momento exato dessa transição. O momento em que a esperança conhece a desesperança. O momento em que a alegria conhece a tristeza.
Alegria e esperança parecem ser propriedades natas da infância. "Naquele Verão", romance infantojuvenil publicado pela editora Iluminuras, deixa claro que existem sentimentos que não podem ser subtraídos da infância apenas em nome da ingenuidade.
"Naquele Verão" é narrado por Anna, uma garota que vive numa região rural. Ela possui dois grandes amigos, Daniel e Lucas, que residem na casa ao lado. Além de vizinhas, as duas famílias são muito próximas, e as três crianças são tratadas como irmãos.
Durante o verão, dramas distintos abalam as duas famílias. De um lado, o pai de Anna se separa da esposa e abandona a família. De outro, a mãe de Daniel e Lucas é abatida por um câncer severo.
Anna, Daniel e Lucas desenvolvem mecanismos próprios para lidar com a situação, mas é a doença de Gisela, a mãe dos garotos, que bate mais forte. Para fugir da situação, os três criam uma fixação pelos peixes que habitam um riacho próximo.
A grande empreitada é pescar um lúcio, peixe esverdeado de barriga prateada que não gosta de morder iscas ou anzóis. Para uma pescaria de sucesso é necessário utilizar, como isca, pequenos peixinhos vermelhos. A aventura acontece paralelamente ao agravamento da doença de Gisela.
As crianças não entendem bem a gravidade da situação, já que os adultos preferem não falar claramente sobre os fatos. O entendimento aparece a partir de comentários, fofocas e sarros de outras crianças da escola que frequentam.
As três crianças começam a sentir que a doença de Gisela é terminal, não há uma cura possível. A morte se apresenta não mais como possibilidade, mas como certeza. Anna e Daniel, um pouco mais velhos que Lucas, começam a desconfiar que a medicina, com seus remédios, não pode fazer nada para curar Gisela. Assim como Deus não pode fazer nada para salvá-la.
Jutta Richter coloca nas personagens infantis um tipo de questionamento geralmente restrito ao universo dos adultos. Anna e Daniel chegam, sozinhos, à conclusão de que nenhuma oração será capaz de livrar Gisela da morte. E que Deus é uma fantasia dos adultos, algo como o Coelhinho da Páscoa e o Papai Noel. Uma fantasia em que as crianças acreditam até certa idade, depois deixa de fazer sentido.
Nesse processo, Daniel e Anna deslocam a fantasia pura da fé para algo mais concreto, mas igualmente frustrante. Os dois começam a acreditar que se conseguirem pescar um lúcio, Gisela estará salva. O peixe assume a imagem de um novo Deus com poderes superiores. As crianças simplesmente precisam acreditar em algo que altere a realidade.
Não existe uma linha clara que demarque o final da infância. Mas parece que algumas experiências profundamente individuais podem desenhar essa linha. E essas experiências podem dar às crianças percepções que um adulto jamais acreditaria.
A fé não altera a realidade, apenas faz com que as pessoas suportem melhor a dor. A fantasia não altera a dor, apenas faz com que as pessoas suportem melhor a realidade.
Serviço:
"Naquele Verão"
Autor Jutta Richter
Editora Iluminuras
Tradução José Feres Sabino
Páginas 112
Quanto R$ 38


