Para falar de alguns livros, precisamos ficar sem beber água o dia inteiro. Tomar três banhos gelados. Pregar o botão que faltava na camisa há anos.
Para pensar em algumas coisas, precisamos dar bom dia ao cachorro do vizinho. Conversar com a goiabeira. Colocar discretamente a caca de nariz embaixo da cadeira. Esquecer que sapos são anfíbios e bois são ruminantes.
Para entender algumas coisas, precisamos andar de bicicleta. Assim como entendemos coisas só subindo em árvores, ou caindo de uma escada, ou levando uma dura, ou chorando no escuro, só entendemos algumas coisas quando aprendemos andar de bicicleta. Tombos, joelhos ralados e lágrimas nos olhos.
Apesar de cotovelos e joelhos eternamente ralados, Raul era um garoto que não conseguia andar de bicicleta. Toda tentativa terminava em tombos e quedas. Ele simplesmente não conseguia se equilibrar sobre duas rodas. E morria de vergonha disso.
Com o tempo, desenvolveu uma série de artimanhas para que ninguém soubesse que não sabia andar de bicicleta. Era seu grande segredo, guardado a sete chaves. Curiosamente isso levou Raul a se tornar um mecânico de bicicleta. Não um mecânico qualquer, mas o melhor mecânico da cidade. Em suas mãos, qualquer bike detonada ficava novinha.
Apesar de sua fama de melhor mecânico, apesar de sua paixão pelo conserto de bicicletas, Raul tinha um segredo. Guardado lá no fundo. Um segredo que, em alguns momentos, ameaçava pular para fora, para a luz do dia, para o meio da praça.
A história do segredo de Raul está em ''Raul Taburin'' livro criado pelo cartunista francês Jean-Jacques Sempé que acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify. Raul é mais uma grande figura da galeria de personagens criados por Sempé como Marcelino Pedregulho e o Pequeno Nicolau.
Mais do que a história de um mecânico de bicicleta que não sabia andar de bicicleta, ''Raul Taburin'' é um livro sobre a amizade. E muito mais do que um livro sobre a amizade, é uma obra sobre aqueles segredos que as pessoas carregam dentro de si como se carregassem pedra. Aqueles segredos capazes de revelar as mais íntimas fragilidades humanas.
Para falar do livro de Sempé talvez seja necessário subir numa árvore, ou cair de uma escada, ou dar bom dia ao cachorro do vizinho. Ou, quem sabe, levar um tombo de bicicleta. E no chão, entre lágrimas e machucados, olhar para cima e descobrir o céu das bicicletas.
Serviço:-
Raul Taburin
Autor - Sempé
Editora - Cosac Naify
Tradução - Mario Sergio Conti
Páginas - 96
Quanto - R$ 47

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