LEITURINHA - O bicho das letras
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de junho de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Você já leu um gato? Já leu um macaco? Você já leu uma centopéia? Ou mesmo uma anta? Não? Não sabe o que está perdendo.
Ler um bicho pode ser tão interessante quanto ler um livro. Em algumas situações pode ser muito mais interessante.
No começo pode parecer complicado. A primeira vez que li um elefante, por exemplo, levei dias só com a tromba. E confesso, não consegui ir além das orelhas. Tenho uma amiga que há dois anos está lendo uma girafa e ainda não chegou ao final.
Com o tempo tudo fica mais fácil. O ideal é começar com animais sem muita complicação. Bichos como cachorros, coelhos, joaninhas, mosquitos e vacas. Melhor deixar os ornitorrincos para depois.
O poeta francês Jacques Roubaud passou anos de sua vida lendo um punhado de animais. Os simples e os complicados. Sua maneira de leitura foi escrever poemas para crianças sobre cada bicho. Reuniu os poemas num livro chamado ''Os Animais do Mundo'', que acaba de ser lançado pela Editora Cosac Naify com ilustrações de Fefe Talavera.
Em seus versos, Jacques Roubaud trabalha com um generoso bom humor. Até mesmo a técnica da escrita é tratada dessa maneira. Se por um lado constrói os poemas a partir de uma forma literária rígida, por outro subverte essa mesma rigidez. As brincadeiras do poeta, mesmo as mais irônicas e sutis, sempre trazem alguma surpresa.
No final do livro, o autor explica, numa carta endereçada ao ouriço de espinhos afiados, como foi realizado o trabalho de construção dos poemas. Há também uma outra carta. Essa assinada por um bando de cachorros raivosos que ficaram fora da obra. Isso porque Roubaud não escreveu nenhum poema sobre os cães.
Nessa carta os cães apontam uma por uma as enganações realizadas pelo poeta em seus versos. Tanto em relações aos animais quando em relação à técnica literária. Em outras palavras, os cachorros mordem a perna de Jacques Roubaud e mostram o osso. Com bom humor, é claro.
Em alguns poemas de ''Os Animais de Todo Mundo'', o autor utiliza uma série de referências específicas. Coisas talvez só seu tio é capaz de entender. Nesses casos, é só passar para o poema da próxima página, para o próximo bicho. Só não vale inventar a desculpa de que precisa sair para ler um bicho-preguiça.
Serviço:
- Livro ''Os Animais de Todo Mundo'', de Jacques Roubaud, ilustrações de Fefe Talavera. Editora Cosac Naify, tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscarf, posfácio de Dominique Moncondhuy, edição bilíngue, 152 páginas, capa dura, R$ 35,00.


