LEITURINHA - O aprisionamento da infância
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Existem coisas leves e coisas pesadas. Altas e baixas. Grandes e pequenas. Fortes e fracas. Secas e molhadas. Doces e amargas. Duras e moles. Rápidas e lendas. Quentes e frias. Claras e escuras. A lista de antônimos é longa, vai até a esquina e faz a curva.
Mas as coisas não são leves ou pesadas para sempre. O tempo pode alterar as diferenças. O tempo pode transformar as coisas, mudar as pessoas.
"A Libélula e a Tartaruga", obra do educador Rubem Alves (1933 2014), traz uma fábula sobre transformações e estagnações. Trata-se do quarto e último volume das fábulas infantis do escritor relançadas pela editora FTD.
O livro narra o encontro entre uma velha tartaruga e uma jovem libélula às margens de um ribeirão. A tartaruga, que considera carregar toda a sabedoria do mundo, tenta convencer a leve e sorridente libélula a se tornar dura, pesada e séria.
A tartaruga acredita que a libélula coloca sua própria existência em risco vivendo de maneira leve, livre e solta. Seu argumento é amargo: "Em você tudo é esbanjamento: asas vibrando, um ir e vir constante, voar sem cessar. Mas isso tudo faz mal. O mais econômico é a imobilidade: do corpo, dos sentimentos, do pensamento. A vida é como a vela. Quanto mais tempo apagada, mais tempo dura."
O grande objetivo da pesada tartaruga é convencer a leve libélula a se tornar uma pesada tartaruga com uma dura armadura. Transformá-la em alguém duro, protegido no interior de uma carapaça, detentor de fortes e rígidas convicções. Ou seja, convertê-la num adulto o mais rápido possível.
Em "A Libélula e a Tartaruga", Rubem Alves revela como os adultos, em nome da proteção e da segurança, procuram empurrar aos mais jovens conceitos que fazem parte apenas da idade adulta, não da vida das crianças.

Serviço:
"A Libélula e a Tartaruga"
Autor Rubem Alves
Ilustração Veridiana Scarpelli
Páginas 32
Quanto R$ 37


