LEITURINHA - Nariz de Pinóquio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de agosto de 2004
Marcos Losnak<br> Especial par a Folha2 
Quando precisamos tomar injeção, todo mundo vem com aquela conversa de ''não vai doer nada''. Falam que é só uma picadinha de formiga e acabou. Tudo mentira. Dói bastante, dá vontade de chorar. É uma verdadeira picada de tyranosaurus.
O problema é que todo mundo que diz que injeção não dói (o que é umas tremenda mentira), também diz que mentir é a coisa mais feia do mundo.
Tempos atrás, por exemplo, falei uma mentirinha para minha mãe. Jurei que quem havia quebrado o vaso da sala era meu irmão, não eu. Uma mentira pequena. Ela descobriu a verdade e quase arrancou minhas orelhas. Deu um sermão de meia hora, dizendo que era errado mentir, algo nojento.
O curioso é que, alguns dias depois, quando alguém perguntou para ela sua idade, respondeu 33. Com o maior sorriso nos lábios, toda vaidosa. Mentira. Na verdade ela tinha 40 anos.
Então comecei a pensar que talvez existam mentiras boas e mentiras más. Mentiras feias e mentiras bonitas. Algumas promovem o bem, outras promovem o mal. Em outras palavras, na prática, mentira é algo relativo.
Cheguei a várias outras conclusões depois de ler ''Mentiras... e Mentiras'', novo livro da escritora Tatiana Belinky lançado pela Editora Companhia das Letrinhas. Composto por 23 crônicas, o livro me fez pensar sobre o lado errado e o lado certo da mentira. Uma coisa bem complicada.
Relatando situações que viveu e presenciou, ao logo de seus 85 anos, tendo a mentira como componente básico, Tatiana foge da idéia de que a mentira é sempre nociva. As pequenas histórias que narra, procuram fazer o leitor pensar sobre o assunto, refletir acerca das mentiras que valem a pena e as mentiras que não valem nada.
Além de falar sobre suas própria experiências com a mentira, a autora não se esquece dos maiores mentirosos da literatura. Personagens como Pinóquio, Gato de Botas, Barão de Munchhausen e a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que ficaram conhecidos justamente pela maneira como misturaram mentira e verdade.
Após ler ''Mentiras... e Mentiras'', começo a achar que quando alguém diz que injeção não dói, está mentindo por considerar a necessidade da injeção para a saúde do corpo. Isso porque, se dissesse que a coisa ''dói pra caramba'', eu sairia correndo na hora.
Resumindo, mentira é coisa complicada. Só espero que a verdade seja algo mais simples, uma verdade e nada mais. Mas, para ser sincero, começo a pensar que ela pode ser tão complicada quanto a mentira.
Serviço:
- Mentiras... e Mentiras, de Tatiana Belinky, ilustrações de Sergio Kon, 80 páginas, R$ 18,00.


