LEITURINHA - Na pele das coisas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de setembro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Cada coisa tem seu lugar. E cada lugar tem sua coisa. Duas coisas não podem ocupar o mesmo lugar. Só se ficarem uma em cima da outra, mas assim não estariam ocupando o mesmo lugar, estariam lado a lado.
Todos as coisas precisam estar em algum lugar. Mesmo estando fora de seus lugares, as coisas estão em algum lugar. Os poemas, por exemplo, não têm lugar certo para estar. Podem estar em qualquer lugar. No bolso da calça, na gaveta, dentro da cabeça, no muro, na camiseta. Os poemas cabem em qualquer lugar.
Geralmente, o lugar dos poemas são os livros. ''Coisas Que Eu Queria Ser'', que acaba de ser publicado pela Cosac & Naify Edições, é um desses livros em que os poemas estão confortáveis no lugar em que estão. Escrito por Arthur Nestrovski e ilustrado por Maria Eugênia, fala justamente das coisas. Do ponto de vistas das coisas.
Guarda-chuva, liquidificador, telefone, elevador, meia, pára-raio, lâmpada, cortina e relógio são algumas das coisas investigadas pelos textos de Arthur Nestrovski. Para isso, ele coloca-se no papel das coisas para pensar sobre elas e descrevê-las. O livro segue o estilo com um pé na prosa e outro na poesia de sua obra infanto-juvenil anterior, ''Bichos Que Existem & Bicho Que Não Existem'', ganhador do Prêmio Jabuti de 2003
''Coisas Que Eu Queria Ser'' é uma investigação sobre o sentido que as coisas possuem. Sentidos que, na maioria das vezes, permanecem apagadas pela velocidade e superficialidade do cotidiano. E a melhor maneira de perceber uma coisa, em seu sentido mais amplo, é se colocar no lugar dela.
Isso pode ser divertido. Imagine você sendo um carrinho de supermercado ou um tênis com chulé, uma caixa de fósforos ou talvez uma dentadura. O interessante é que há coisas que ninguém que ser. Mala, por exemplo. Papel higiênico. Mas é sempre bom pensar nas coisas e nos lugares que elas ocupam em nossa existência.
Entre as várias coisas descritas em ''Coisas Que Eu Queria Ser'', apenas uma delas não existe. Pelo menos ainda ninguém inventou. Trata-se do Exterminador de Chatos, um objeto que todo mundo gostaria de ter no bolso. Com uma simples apertar de botão, os chatos próximos seriam desfeitos em segundos.
Seria um objeto fantástico, daqueles que ocupam lugares que não precisam de coisas. Lugares que podem ser vazios e, mesmo assim repletos de coisas. Você consegue imaginar um lugar vazio cheio de coisas?
Serviço:
- ''Coisas Que Eu Queria Ser'' de Arthur Nestrovski, ilustrações de Maria Eugênia, Cosac & Naify Edições, 56 páginas, capa dura, R$ 29,00.


