LEITURINHA - Histórias endiabradas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de dezembro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Como todo mundo sabe, o inferno é lugar preferido do diabo. O lugar mais quente do mundo, onde não há ventilador, nem ar-condicionado. Muito menos janelinha para entrar um ventinho.
O lugar é tão quente que em alguns momentos nem o capeta aguenta. Nesses momentos o ''coisa ruim'' sai do inferno para respirar ar fresco, tomar uma brisa.
As tradicionais histórias populares é o lugar preferido pelo diabo para se refrescar nessas ocasiões. Na maioria dessas histórias, o capeta se dá mal. Tenta ludibriar as pessoas e sempre acaba encontrando alguém mais esperto que ele. Alguém que encontra um jeito de mandá-lo de volta ao calor do inferno.
A escritora e ilustradora mineira Angela-Lago reconta algumas dessas tradicionais histórias em ''Muito Capeta'', seu mais novo livro lançado pela Companhia das Letrinhas. São três histórias divertidas e bem-humoradas reunidas numa única narrativa.
''Muito Capeta'' conta as desventuras do Diabo Louro, um capeta que gostava de barbarizar nos bailes. Seu método era sempre o mesmo. Chegava todo bonitão numa festa e convidava uma moça para dançar. No meio da dança, quando a moça percebia que seus pés eram de bode, o ''demo'' soltava uma gargalhada e sumia no ar. Além do susto, deixava um fedor insuportável de enxofre no ar. Acabava com a festa.
Como todo capeta, mais cedo ou mais tarde entra em apuros: um belo dia Diabo Louro caiu do cavalo. Dançou com uma moça que não percebeu seus pés de bode, a Maria Valsa. E, para sua desgraça, apaixona-se por ela.
Como nenhuma mulher em sã consciência se casaria com o ''demo'', Diabo Louro dá um jeito de conquistar a amada. Para ocultar seus pés de bode, contrata um sapateiro para costurar um par de botas em suas patas. Ocultando os pés de bode, ele consegue casar-se com Maria Valsa.
O problema era que o capeta nunca podia tirar as botas. Nem para dormir. Tal fato começou a incomodar sua sogra, mãe de Maria Valsa. Como todo mundo conhece a fama das sogras em geral, nem é necessário dizer que a mãe de Maria Valsa descobriu uma maneira de perturbar a vida do diabo.
A história segue em frente com o capeta comendo, por ironia, o pão que o diabo amassou. Em contos populares como os recontados por Angela-Lago ao público infantil, a maldade é ridicularizada através do humor e da esperteza. O lado assustador do mal é com abatido com o sorriso da inteligência.
''Muito Capeta'', de Angela-Lago, é o tipo de livro que diabo não gosta. Talvez porque o capeta da história entra pelo cano. Ainda é obrigado a voltar para o lugar mais quente do mundo. Sem ar-condicionado, sem ventilador, sem janela. Sem um simples lequinho num calor dos diabos.
Serviço:
- Muito Capeta, texto e ilustração de Angela-Lago, Editora Companhia das Letrinhas, 64 páginas, R$ 28,50.


