LEITURINHA - Histórias de hospital
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de julho de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Doença e dor podem ser consideradas irmãs inseparáveis.
Quando a doença surge, logo em seguida aparece a dor. Quando a dor aparece, sempre vem acompanhada de alguma doença.
Juntas, essas inseparáveis irmãs, empurram as pessoas para uma direção lógica: ao médico.
Todo mundo conhece uma história de doença e dor. Já viveu, ou presenciou. Ou pelo menos ouviu falar. Mesmo indesejadas, elas fazem parte da existência.
A relação entre medicina e literatura é antiga. Ambas parecem tratar, cada uma a seu modo, de algum tipo de sofrimento humano. Também não são poucos os médicos que se tornaram poetas e escritores.
''Vida Crônica'', lançada pela Editora Cia. Das Letras, é uma antologia de contos que focalizam a relação entre a literatura e a medicina. Voltado ao público juvenil, traz nove textos de autores brasileiros e estrangeiros.
São várias as abordagens, os estilos e as linguagens. Mas todos contos contam uma história sobre a relação das pessoas com a doença. Seu universo e implicações, tipicamente humanas.
Três deles merecem destaque. Um escrito pelo brasileiro Machado de Assis (1839 - 1908), outro pelo russo Anton Tchekhov (1860 - 1906) e o terceiro pelo norte-americano William Carlos Williams (1883 - 1963). Vale lembrar que Tchekhov e Williams atuaram como médicos ao longo de suas vidas.
Em ''O Enfermeiro'', Machado de Assis narra a história de um enfermeiro que cuida de um velhinho chato e ranzinza. Embora paciente, um belo dia ajuda o enfermo a bater as botas. Depois passa o resto da vida na dúvida se realizou um gesto certo ou errado.
Em ''À Força'', William Carlos Williams conta um episódio que se assemelha a uma batalha. Um médico precisa examinar a garganta de uma garotinha doente. Uma tarefa que seria aparentemente fácil. O drama é que a menina luta com todas suas as forças para impedir tal exame.
''O Doutor'', de Anton Tchekhov, narra o drama de uma mulher que assiste seu filho definhar sem que nenhum médico consiga encontrar a causa da doença. O único capaz de ajudá-la é justamente o homem que vive atormentado pela suspeita não ser o pai do menino. A doença física se desloca para as doenças da mente e do coração.
Dor e Doença físicas, mentais ou emocionais podem ser consideradas irmãs humanamente inseparáveis. E como todos sabem, só os mortos não ficam doente. Nem sentem dores.
Serviço:
- ''Vida Crônica'', textos de Ana Miranda, Anton Tchekhov, Arthur Conan Doyle, Drauzio Varella, Machado de Assis, Moacyr Scliar, Ricardo Gouveia, William Carlos Williams, Paulo Bloise, organização de Heloisa Prieto e Paulo Bloise, ilustrações de Flávio Mário, Editora Cia. Das Letras, 130 páginas, R$ 28,00.


