No início, o grupo era formado por Mosca, Riccio e Vespa. Três crianças sem pais. Moravam escondidos num cinema abandonado e viviam perambulando pelas ruas de Veneza, surrupiando um dinheirinho dos incautos. Sem nenhum adulto dando ordens, cultivavam uma liberdade sedutora.
Mas quem realmente garantia a sobrevivência do grupo era Scipio, um sujeito misterioso conhecido mais conhecido como Senhor dos Ladrões. Apesar de sua roupa e comportamento, era um garoto. Sua especialidade: roubar as mais ricas residências da cidade e doar o fruto dos furtos aos órfãos.
Mas a história torna-se uma grande aventura quando o grupo recebe mais dois membros, Bo e Próspero. Dois irmãos, também órfãos, que fugiram das garras de uma tia cruel e insuportável. Para piorar a situação, são perseguidos por um detetive particular contratado para encontrá-los.
As aventuras dessa turma que procura ficar bem longe dos adultos, que deseja viver como bem entende, são narradas pela escritora e ilustradora alemã Cornelia Funke em ''O Senhor dos Ladrões''. Trata-se de um romance juvenil que, na Europa, fez sucesso semelhante ao de ''Harry Potter'' e está sendo transformado em filme.
Lançado pela Editora Cia. das Letras, ''O Senhor dos Ladrões'' mistura realismo e fantasia. A infância e a idade adulta são tratadas como dois mundos em conflito. Um conflito que pode ser superado a partir do respeito mútuo e uma boa dose de aconchego.
Tudo começa quando Scipio recebe uma tentadora proposta de trabalho e coloca todo o grupo na tarefa. O objeto a ser roubado é estranho, a peça de um antigo carrossel, mas a recompensa é alta. Colocando o plano em prática, eles descobrem que tal carrossel possui um poder mágico: é capaz de rejuvenescer ou envelhecer quem gira nele. Se rodado numa direção, pode transformar velhos em crianças. Se rodado em direção contrária, pode transformar crianças em adulto.
Não é difícil imaginar a sedução que o carrossel pode exercer nas pessoas. De um lado, idosos que não tiveram a oportunidade de viver uma infância plena podem voltar no tempo e superar essa privação. De outro lado, crianças que sofrem uma infância infeliz podem acelerar o tempo tornando-se adultos.
Em sua narrativa, Cornelia Funke não toma posições morais educacionais. Em ''O Senhor dos Ladrões'', existe criança querendo ser criança, criança querendo ser adulto, adulto querendo ser criança e adulto querendo ser adulto. Cada um seguindo o caminho escolhido e sendo respeitado por isso.

Serviço:
- ''O Senhor dos Ladrões'', de Cornelia Funke, Editora Cia. das Letras, tradução de Sonali Bertuol, 368 páginas, R$ 34,00.

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