LEITURINHA - Crueldade e sentimento
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Antigamente, matar passarinho era algo corriqueiro. Todo menino andava com um estilingue nas mãos e pedras nos bolsos. Matar passarinho era uma diversão.
Uma das mais belas histórias sobre essa violência, aparentemente inocente, foi criada pelo escritor mineiro Wander Piroli (1931 2006) no livro "O Matador". Publicado originalmente em 2008 pela editora Leitura, a obra acaba de ganhar uma nova edição pelas mãos da editora Cosac Naify.
Preservando as ilustrações de Odilon Moraes, a obra narra a história de um menino ruim de pontaria, incapaz de acertar um passarinho com o estilingue.
Todos os garotos do bairro manejavam a arma com destreza. Todos matavam passarinhos. Menos ele. Por mais que treinasse a pontaria, nunca acertava o alvo.
Motivo de deboche na turma, desejava conseguir matar pelo menos um mísero pardal, mostrar para todos que também era um matador de passarinhos.
Um belo dia, finalmente, consegue realizar seu desejo. Acerta um pardal, mata o passarinho. Curiosamente não há ninguém para ver sua façanha, nenhum garoto por perto. Nenhuma testemunha.
Eufórico, o menino tenta mostrar sua conquista para todos, mas não encontra ninguém. Com o pássaro morto nas mãos, não acha ninguém para admirar seu ato.
De nada vale matar um passarinho sem testemunhas. O sentido não está apenas em conseguir matar um pardal, está em ser admirado pelo feito.
Totalmente sozinho, sem testemunhas, o menino percebe o vazio de seu ato. O despropósito de seu desejo, a crueldade de seu gesto.
Wander Piroli vai direto ao ponto: em nome da aceitação social, o ser humano é capaz de todo tipo de crueldade. É capaz até mesmo de violentar sua própria natureza.
Serviço:
"O Matador"
Autor Wander Piroli
Ilustrações Odilon Moraes
Editora Cosac Naify
Páginas 32
Quanto R$ 36


