LEITURINHA - Coração apavorado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de maio de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Medo é uma coisa difícil de explicar. Parece uma nuvem negra que, quando menos esperamos, invade nossos pensamentos. Parece até uma manada de elefantes correndo em nossa direção.
Quando o medo aparece, queremos pouca coisa. Apenas ficar encolhidos, embaixo de um cobertor, bem escondidos. A lista de medos é tão grande quanto o próprio medo: de escuro, de aranha, de perder a mãe, de ser esquecido na escola, de morcego, de ladrão, de dormir sozinho, de abobrinha refogada, de fantasma...
Medo de cachorro, por exemplo, é tão comum quanto medo de fantasma. Esse era o drama de Leonardo. Ele passava as manhãs desenhando cachorros de todos os tipos e raças: grandes, pequenos, pretos, malhados, gordos, magros, feios, bonitos. Todos muito bravos, com dentes afiados e famintos.
Todos os dias Leonardo brincava de cachorro. Latia, rosnava, mordia a perna das pessoas. O problema era que quando saía de casa, ao ver qualquer cão, entrava em pânico. Podia ser um cachorrinho bem mansinho, não importava, uma nuvem negra invadia seus pensamentos. O medo era como uma manada de elefantes correndo em sua direção.
Mas Leonardo era um menino de sorte. Certa noite recebeu a visita de uma fada que se dispôs ajudá-lo a ficar livre do medo de cães. Assim, realizou o pedido secreto de Leonardo: ser transformado num cachorro grande e forte.
Em seu primeiro passeio pelas ruas, levados pelos pais numa coleira, percebeu que não tinha mais medo de cachorro. Porém, sentiu um outro tipo de pavor: o de meninos. O medo, na verdade, não havia desaparecido, apenas se transformado em outro medo.
A história é contada por Wolf Erlbruch em ''Leonardo'', livro lançado pela Editora Companhia das Letrinhas. Utilizando um texto breve, mostra que, na realidade, o medo não está nas coisas que sentimos medo. Ele está, na verdade, dentro de nós.
''Leonardo'' revela que podemos até desejar soluções mágicas para a superação do medo. Imaginar saídas fantásticas para que ele deixe de existir. Mas nada disso resolve o problema. É um sentimento incontrolável. E, para maior tranquilidade, pode ser abraçado, tratado com carinho, como se fosse um cachorrinho fofinho.
O medo parte de nós. E conviver com ele é um desafio. Ele, uma vez ou outra se cansa de nós, ou nos cansamos dele.
Serviço:
- ''Leonardo'' de Wolf Erlbruch, Editora Companhia das Letras, tradução de Sergio Tellaroli, 36 páginas, R$ 26,00.


