LEITURINHA - Consertando a realidade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de dezembro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Algumas coisas não são fáceis de entender. Quando nossos pais brigam por exemplo, a vida fica escura. Por mais que tentamos, não conseguimos entender porque as duas pessoas que mais gostamos não conseguem viver juntas.
A escritora suíça Brigitte Schar toca nesse assunto em ''Mamãe é Grande Como Uma Torre'', livro infantil que acaba de ser lançado pelo Cosac & Naify Edições. Com ilustrações de Jacky Gleich, a obra narra a experiência vivida por uma garotinha diante da separação dos pais.
A história é narrada pela própria criança, dentro de uma ótica infantil. Revela seu empenho em entender a situação, e seus sentimentos diante dela. Para isso, utiliza toda riqueza da imaginação infantil, construindo de modo intuitivo elementos simbólicos para superar o sofrimento.
Na escola onde estuda, a menina é colocada no fundo da sala de aula, isolada, sob alegação de ser mentirosa e de atrapalhar a aula. As ''mentiras'' que conta são fruto direto da separação dos pais, a maneira que encontrou para resolver o drama. Após uma briga barulhenta com o marido, a mãe torna-se imensa, gigante, e abandona a casa para correr o mundo trabalhando como guindaste. O pai, torna-se minúsculo, pequenino, passando a morar dentro de uma caixa de sapato.
Se antes os pais eram de tamanho normal, após a briga, cada um assume tamanho distinto. Essa diferença passa a impedir uma vida comum, a convivência na mesma casa. Assim a menina, em sua fantasia, se empenha em enviar cartas à mãe que viaja mundo afora e se dedica em alimentar o pai isolado na caixa de sapato.
Por mais que sinta a proximidade do pai, o que a garotinha mais sente é a ausência da mãe. Em suas fantasias, aguarda que a mãe venha buscá-la. Assim poderá ficar ao seu lado acompanhando suas aventuras. A diminuição do pai e o aumento da mãe é uma consequência direta das necessidades emocionais da menina enquanto filha.
Dessa maneira, ''Mamãe é Grande Como Uma Torre'' realiza um retrato lúdico e ao mesmo tempo concreto do que se passa dentro da cabeça de uma criança que acaba de assistir à separação dos pais. Ao perder um mundo seguro, precisa reorganizar, através da fantasia, os sentimentos para uma nova vida.
Serviço:
- ''Mamãe é Grande Como Uma Torre'' de Brigitte Schõr, ilustrações de Jacky Gleich, Cosac & Naify Edições, tradução de Christine Röhrig, 32 páginas, capa dura, R$ 33,00.


