LEITURINHA - Brincadeira de urso
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Alguns ruídos dos edifícios são inexplicáveis. Parece que alguma coisa se arrasta pelos canos. Parece que alguma coisa arranha as paredes. Durante as madrugadas, quando tudo está silencioso, é possível ouvir sons pra lá de estranhos.
O escritor argentino Julio Cortázar (1014 - 1984) descobriu a origem desses ruídos. Você pode não acreditar, mas tudo é culpa dos ursos. Em cada edifício existe um urso correndo pelos canos e tubulações. Geralmente procuram não fazer nenhum barulho, mas raramente conseguem.
Essa descoberta de Julio Cortázar está em Discurso de Urso, um dos poucas obras escrita para crianças pelo escritor. Lançado pela editora Recorda com ilustrações de Emilio Urberuaga, o livro é uma despreocupada e divertida brincadeira sobre os ruídos urbanos desconhecidos.
Nos apartamentos, os ursos percorrem todo tipo de tubulação. Na correria para cima e para baixo, deixam os canos limpinhos por dentro. Depois adoram tomar banho na caixa dágua, fazendo aquele típico barulho.
Nos dias em que estão muito alegres, os ursos deslizam suas unhas pelas tubulações e grunhem numa grande festa. Geralmente os moradores não apreciam tamanho barulho, principalmente os mais velhinhos, e fatalmente descarregam protestos aos zeladores e reclamações aos vizinhos e síndicos.
Você pode não acreditar, mas Cortázar jura que é verdade. Sabe aqueles dias em que você levanta da cama ainda dormindo e caminha até o banheiro para lavar o rosto? Sabe aquela água gelada mandando o sono para o ralo? Sabe aquela sensação de estar acordando? É lambida de urso. Ele aproveita sua sonolência e coloca a língua para fora da torneira. Brincadeira de urso.


