LEITURINHA - As máscaras do racismo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
O assunto é espinhoso e geralmente velado. Possui todas as condições para machucar qualquer pessoa com suas formas pontiagudas. Em nosso país nem sempre é encarado de frente, como algo a ser superado. Um tema que pode ser resumido em três palavras: racismo, intolerância e preconceito.
Três mulheres se uniram para sugerir aos jovens uma reflexão sobre o assunto. Carmen Lucia Campos, escritora. Vera Vilhena, historiadora. Sueli Carneiro, antropóloga. Juntas escreveram A Cor do Preconceito, livro lançado pela Editora Ática com ilustrações de Robson Araújo.
Misturando ficção, realidade e história, a narrativa de A Cor do Preconceito é toda estruturada para abordar o assunto sob várias situações e ângulos diversos. Trabalhando com situações reais encontradas no dia-a-dia de qualquer brasileiro, coloca nas mãos do leitor a possibilidade de pensar tanto sobre suas posições sobre o assunto como refletir sobre as atitudes assumidas pela sociedade como um todo.
A obra apresenta a história de Mira, uma garota negra que acaba de concluir a oitava série num colégio público da periferia. Graças à sua dedicação aos estudos consegue uma bolsa no colégio mais caro e prestigiado da cidade. Resumindo, apresenta os desafios de uma jovem negra e pobre estudando num colégio de brancos e ricos.
Com esse resumo, a história narrada pode parecer novela das seis, onde racismo, preconceito e discriminação permanecem apenas na superfície da superfície. A Cor do Preconceito vai além, aponta para o aprofundamento da questão a partir de exemplos concretos e reais. Até mesmo situações onde o preconceito se revela de maneira espontânea e desprovida de sentido lógico são abordados. Outro exemplo. Além de sofrer pelas situações racistas simples e mais complexas, como as veladas, Mira se pega com preconceitos semelhantes. Ou seja, quem sofre dor também pode provocar dor.
O que difere A Cor do Preconceito de outros romances juvenis que abordam o mesmo tema está na lucidez em que foi pensado e executado. Oferece um desenho descomplicado do contexto histórico e cultural em que está inserida a discriminação na sociedade brasileira. Um contexto real e palpável.
Claro que, apesar de tudo, Mira não fica chorando num canto. Em pouco tempo percebe que precisa se lançar nos braços de todo tipo de atitude. Conquistar a auto-estima e adquirir consciência da ação correta torna-se o ponto inicial. E, de maneira subjetiva, uma boa faxina no coração. Tudo para não transformar racismo, preconceito e discriminação numa guerra entre inimigos. Tudo para ver as coisas como algo a ser superado entre semelhantes. Uma tarefa nada fácil, mas possível e viável.


