LEITURINHA - As cores das dores
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de setembro de 2003
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Doença é algo que ninguém quer por perto. Igual pessoa chata, quanto mais longe, melhor. Se possível, mais distante que a lua, a milhões de milhões quilômetros de distância.
Catapora, por exemplo, é aquela coisa chata que deixa a gente parecendo onça pintada. Não pode sair de casa, ir para a escola, nem brincar com os amigos. Ainda tem a mãe falando na orelha que não pode coçar, que não pode tirar as casquinhas das feridas, isso e aquilo.
Doença é realmente algo que ninguém quer por perto. Doença não é brincadeira, todo mundo sabe. Mas em alguns momentos talvez seja interessante rir daquilo que nos faz sofrer. Ou pelo menos se divertir entre uma dor de garganta e uma dor de ouvido.
O escritor Ricardo Azevedo percebeu isso e resolveu criar um livro de poemas falando só de dores e doenças infantis. Versos sobre caxumba, dor de cabeça, frieira, sarampo, resfriado, lombriga, alergia, bronquite e outras coisas mais. Tudo com bom humor e de maneira divertida.
O livro recebeu o nome de Não Existe Dor Gostosa e acaba ser publicado pela editora Companhia das Letrinhas com ilustrações de Mariana Massarani. Talvez seja a primeira vez que um autor reúne num volume poemas que falam de coisas que toda criança experimenta a contragosto e, invariavelmente, chorando. Do tombo que rala o joelho à dor de barriga.
Ricardo Azevedo tem um jeito gostoso de transformar sofrimento em brincadeira. Não que o sofrimento seja brincadeira. Afinal todo mundo sabe que toda dor dói de verdade, mas o sorriso pode funcionar como um mágico remédio.
No poema Alegria e Alergia por exemplo, o autor brinca com a semelhança das duas palavras: São palavras parecidas / Com sentido diferente: / Uma coça e faz ferida, / A outra deixa contente. // A primeira só perturba / Dela a gente quer fugir. / A segunda é o contrário: / Todo mundo quer sentir. // A primeira não tem jeito, / Não deixa ninguém em paz. / A segunda é uma festança, / Que bem que a segunda faz! (...)
No final de Não Existe Dor Gostosa, os poemas tornam-se advinhas para distrair dor de cabeça. Vamos ver se você mata uma charada assim: O que é, o que é? / Sempre dói quando começa / Deixa tudo em mau estado / Quem tem vai embora depressa / Pra depois ficar sentado? Vale uma dica: uma dor como essa sempre termina no banheiro.


