Vou confessar uma coisa. Comecei a escrever esse texto umas dez vezes, sem exagero. Tentava aqui, tentava ali e nada ficava bom. Aí, resolvi começar o texto confessando isso. Não sei explicar direito, apenas não consegui iniciar o texto de outra forma. Ou melhor, essa foi a forma mais sincera que encontrei.
Vou confessar outra coisa. Chorei ao ler o livro do qual estou tentando falar, escrever e comentar. Não foi aquele choro escandaloso que faz um tremendo barulho e chama a atenção de todos ao redor. Foi uma ou duas lágrimas pequenas, aquelas que ficam guardadas no canto dos olhos para situações delicada e silenciosas.
O livro chama-se ''O Anjo da Guarda do Vovô'', escrito e ilustrado pela artista alemã Jutta Bauer, e lançado pela Cosac & Naify Edições. Com imensa delicadeza, narra uma história sobre a vida e a morte. A vida, com todas suas dores e prazeres, é encarada com beleza. Do mesmo modo, a morte é vista, com todos seus reveladores contornos, com semelhante beleza.
Jutta Bauer, com o mínimo de texto, conta a história de um garoto que visita o avô, que está internado num hospital. Na cama, o avô narra ao neto episódios de sua vida, da infância à velhice. Como se apresentasse a história de sua vida de maneira despretensiosa. Chega a encarar a morte como parte da vida, uma espécie de afirmação da vida.
O interessante é que enquanto o texto apresenta a história, as ilustrações apresentam uma outra história, na verdade a mesma, só que a partir de outra perspectiva, a partir da visão de outro personagem: o anjo da guarda que acompanha o avô desde a infância. E lentamente também é inserida a situação na visão do neto que, de maneira tranquila, entra em contato com a morte do avô.
''O Anjo da Guarda do Vovô'' é um livro que tem muito pouco a ver com religião, seja qual for. Está mais relacionado à delicadeza e simplicidade de se encarar a existência humana a partir do olhar infantil. Jutta Bauer descobriu uma maneira doce de falar da morte, daquele momento quando perdemos pessoas próximas e queridas. E falando da morte de maneira sutil, enaltece a vida como algo único que deve ser vivido como brincadeira em dia ensolarado.
Vou confessar mais uma coisa. Assim como não sabia como começar o texto, também não sei como terminá-lo. Tentar ver e fazer as coisas, de um jeito ou de outro, da maneira mais sincera possível faz parte da vida. Assim, o texto acaba aqui. A vida não.
Serviço:
- ''O Anjo da Guarda do Vovô'' de Jutta Bauer, Cosac & Naify Edições, tradução de Christine Rohrig, 48 páginas, R$ 25,00.

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