LEITURINHA - A revolta das sardinhas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de agosto de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Nunca entendi como as sardinhas acabavam dentro das latas, todas bem juntinhas. Todas apertadinhas, deitadinhas. Minha mãe dizia que a lata era o lugar onde as sardinhas dormiam. Meu irmão dizia que que as latas nadavam pelo mar, como um peixe de metal com um monte de peixe dentro. Uma espécie de submarino de sardinhas.
Meu avô tinha uma explicação diferente. Segundo ele, as sardinhas tinham pavor de tubarão. Morriam de medo. Quando encontravam um tubarão pela frente, elas se escondiam dentro da primeira lata que encontravam. E ficavam lá, quietinhas, apertadinhas, esperando o perigo passar. O trabalho dos pescadores consistia em apenas fechar as latas.
Na realidade só fui conhecer a verdade depois de ler ''O Povo das Sardinhas'', livro infantil de Delphine Perret que acaba de ser lançado pela Editora Cosac Naify. Para entender a história criada por Delphine, você vai precisar esquecer tudo que já ouviu falar sobre sardinhas. Tudo mesmo. Especialmente sobre sardinhas em lata.
É preciso imaginar que, muito tempo atrás, antes de os homens inventarem barcos e navios, as sardinhas brotavam em árvores. Assim como laranjas e mangas, elas nasciam em árvores chamadas sardinheiras. Elas nasciam dentro de latas e só depois de maduras é que as latas se abriam naturalmente.
Os homens, nessa época, colhiam as sardinhas ainda verdes, antes delas se libertarem das latas. Mas não era todo mundo que podia ter um pé de sardinha. As sardinheiras eram propriedade restrita do governo, guardadas por muros altos e cercas elétricas. Era proibido qualquer cidadão ter uma sardinheira no quintal de casa.
Mas, certo dia, um sujeito resolveu desobedecer a lei. Decidiu plantar um pé de sardinha no quintal. Cuidou da árvore com todo carinho, mas, quando apareceram as primeiras latas nos galhos, esqueceu de colher as latas ainda verdes. Maduras, as sardinhas saíram das latas. Livres das latas, colocaram em prática a mais bem humorada revolta das sardinhas.
Em ''O Povo das Sardinhas'' Delphine Perret encontrou uma maneira inusitada de revelar o que se esconde atrás da idéia de obediência e de desobediência. Também o que se esconde atrás da idéia de confinamento e de liberdade. Oferece uma reflexão de grande sutileza, carregada de bom humor sobre o destino dos seres vivos. No caso, o destino das inofensivas sardinhas em lata.
Serviço:
- Livro ''O Povo das Sardinhas'', texto e ilustrações de Delphine Perret, Editora Cosac Naify, tradução de Paulo Neves, 32 páginas, capa dura, R$ 22,00.


