Nahuri era um indiozinho potiguara, habitante de uma tribo do nordeste brasileiro. Tinha como bicho de estimação um macaquinho que vivia em seu ombro. Certo dia o animal morreu e Nahuri caiu numa profunda tristeza.
Vendo o garoto chorando pelos cantos, seu avô o chamou para um conversa e disse as seguintes palavras: ''Nahuri, dentro de seu coração mora um espírito de caçador que mata o animal para se alimentar de sua carne, mas há também o apego. Esse apego também vem do seu espírito e é o seu amor por determinado animal. Quando uma criança se apega a um bichinho e aprende amá-lo, perde o desejo de aprisionar ou de matar outro animal daquela mesma espécie. Foi por isso que seu macaquinho morreu. O primeiro animal amado por uma criança sempre morre muito cedo. Isso faz parte de seu aprendizado. Só assim, dessa maneira tão simples e forte, você aprenderá como é duro para os próprios animais perderem os seus semelhantes. Após esse seu sofrimento, meu neto, você dará mais valor à vida, para que nunca saia matando ou maltratando animais apenas para se divertir.''
Nahuri enxugou as lágrimas e foi se abrigar no colo da irmã mais velha, Katy. É a própria Katy que relembra esse episódio vivido pelo irmão em ''Meu Lugar no Mundo'', seu primeiro livro lançado pela Editora Ática com xilogravuras de Fernando Vilela.
Jovem índia potiguara, Sulami Katy nasceu na pequena aldeia de Baía da Traição, situada no litoral da Paraíba. Ao frequentar a escola da cidade mais próxima, entrou em contato com um mundo urbano habitados por pessoas culturalmente diferentes.
Vivendo entre sua aldeia nativa, inundada pela tradição de seus ancestrais, e a cidade, afogada pela urbanidade, Katy enfrentou uma série de desafios para entender que os dois mundos poderiam dialogar sem conflitos, sem preconceitos.
''Meu Lugar no Mundo'' é uma belo e emocionado depoimento de alguém que percebe que possui a missão de levar às crianças das grandes cidades, a visão de mundo de seu povo. E vai além. Não se restringe às histórias vividas em sua aldeia, ou narrada por seus pais e avós, mas aos conflitos provocados pelas diferenças culturais.
Trata-se de um livro sensivelmente diferentes de outros que procuram resgatar o universo indígena brasileiro. Uma obra que traz o depoimento de alguém procurando encontrar seu lugar no mundo. Uma jornada que toda pessoa, criança ou adulto, precisa percorrer à procura de um canto seguro. Tenha nascido numa oca ou num edifício de vinte andares.


Serviço:
- Meu Lugar no Mundo, de Sulami Katy (com participação de Heloisa Prieto e Daniel Munduruku), ilustrações de Fernando Vilela, Editora Ática, 64 páginas, R$ 17,50.

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