Azar é o tipo de coisa difícil de entender. O sujeito procura fazer tudo certo, da melhor maneira possível, mesmo assim tudo acaba errado. Stanley era um garoto que sabia disso desde pequeno. Aos 13 anos de idade havia desistido de entender o azar.
Ele era aquilo que se pode chamar de azarado. Tentava fazer as coisas das mais variadas maneiras, mas todas davam errado. Tentava agir como as outras pessoas agiam, mas com ele as coisas sempre acabavam mal. Para piorar as coisas, Stanley era o gordo da escola, aquele tipo que todo mundo tira o sarro e, sempre que possível, humilha.
Certo dia, voltando da escola, Stanley encontra na rua um par de tênis usado. Jogado num canto, sem dono. Sem pensar duas vezes, pega o par e segue em frente. Imagina que o objeto pode servir aos propósitos do pai que, para ganhar alguns trocados, está tentando inventar um jeito de reciclar tênis velhos.
Algumas quadras depois, o garoto é apanhado pela polícia acusado de roubo. Para seu azar, o tênis que encontrou pertencia a um famoso jogador de beisebol. Estava em exibição e seria leiloado para financiar instituições de ajuda aos sem-teto. Valiam um bocado de dinheiro.
A azarada história de Stanley é narrada pelo escritor norte-americano Louis Sachar no romance infanto-juvenil ''Buracos'' publicado pela Editora Martins Fontes. A narrativa de Louis Sachar cativa tanto por seu conteúdo quando pelo tom em que é contado, onde o humor é colocado em doses sombrias ao longo do texto. O autor constrói uma história com os tijolos da realidade e, como argamassa, utiliza o destino em sua forma mais inesperada.
Graças ao seu peculiar azar, Stanley não consegue provar sua inocência. A justiça fecha os olhos e ele é condenado, obrigado a cumprir pena de um ano de reclusão num centro de recuperação de jovens delinquentes situado bem no meio do deserto. Chamado ironicamente de Acampamento do Lago Verde, o centro fica no meio de um secular lago seco povoado por escorpiões, cascavéis e lagartos venenosos. Um lugar onde nunca chove, com um sol capaz de cozinhar miolos de qualquer garoto em poucas horas.
A rotina diária do acampamento, de domingo a domingo, é sempre a mesma. Os garotos precisam cavar, com uma pá, um buraco de um metro e meio de diâmetro por um metro e meio de profundidade. Cada um cava seu próprio buraco no meio do deserto, com a terra seca e o violento sol dificultando a tarefa. Água racionada e comida nada agradável também fazem parte da rotina.
Logo no primeiro dia confinado, Stanley recebe de seus companheiros de quarto o apelido de Troglodita. Assim, passa a conviver com uma turma da pesada com apelidos como Raio X, Saco de Vômito, Bacalhau, Sovaco, Zero Esquerdo, Ziguezague e Magneto. Fugir do lugar é impossível. Pode-se morrer de sede, picado por uma cascavel ou mordido por um escorpião. O sofrimento e a humilhação diária é o instrumento utilizado para a chamada ''recuperação''. Algo que apenas acende o pavio da revolta.
Quando a revolta explode em Stanley, ela assume a forma de uma aventura entre a vida e a morte: a fuga. Nesse ponto da história dos antepassados de Stanley entra em jogo, bem como o próprio passado do lugar através dos séculos. Associado a isso, o garoto descobre que a tarefa de fazer buracos todos os dias não é algo gratuito. A diretoria da instituição procura alguma coisa no subsolo do lago e, para isso utiliza os internos como mão de obra próxima da escravidão.
''Buracos'' narra desafio de um garoto em alcançar a redenção trafegando por caminhos de pedra. A história de um garoto que precisa acreditar em alguma coisa capaz de colocar seu azar no lixo. A busca por um tipo de liberdade que trafega entre interior e exterior. O desafio de um garoto em ser ele mesmo nem que seja preciso comer apenas cebola crua durante uma semana.

Serviço:
- ''Buracos'', de Louis Sachar, Editora Martins Fontes, tradução de Eduardo Brandão, 248 páginas, R$ 36,50.

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