Olhar para fora sempre foi mais fácil para os olhos. Olhar para dentro exige um pouco mais. Exige algum esforço dos olhos. Exige tempo, frio e chuva.

Olhar para dentro é voltar os olhos para si mesmo. Olhar para coisas que estão dentro da gente. Coisas que a gente nunca viu. Coisas que a gente nunca prestou atenção.

Olhar para si mesmo é um exercício. O escritor e ilustrador norte-americano Shel Silverster (1930 – 1999) mostra como esse exercício pode gerar conhecimento no livro infantil "A Parte Que Falta Encontra o Grande O". Não aquele conhecimento teórico, mas o conhecimento da vida.

Lançado pela editora Cosac Naify, a obra é de uma simplicidade austera. Em poucas palavras e o mínimo de traços em preto e branco, revela uma história onde a introspecção ocupa lugar de destaque.

Narra a história de um ser de aparência triangular que procura alguém que o complete. O encaixe ideal, o complemento exato. Alguém que pudesse levá-lo a algum lugar. Um ser que acredita que a solução para sua felicidade estaria no outro.

Nessa busca passa pelas mais diversas situações repletas de acertos e desacertos. Encontros e desencontros. Encaixes e desencaixes. Até o dia em que aprende que pode se sentir completo por si mesmo.

"A Parte Que Falta Encontra o Grande O" é continuação de outro livro de Shel Silverstein lançado pela Cosac Naify, "A Parte Que Falta". Não se trata de apenas uma continuação, mas uma mesma história contada por dois olhares diferentes.

Se no segundo livro a história é narrada pelo ser triangular, no primeiro é narrada por um ser circular. Ambos os personagens, desejam, cada um a seu modo, encontrar algo que os façam felizes. Preencher o vazio. Encontrar aquilo que eternamente falta.

Os dois desejam aquilo que todo mundo quer: algo ou alguém que os completem, que lhes dê a sensação de plenitude.

Pelo caminho encontram todo tipo de seres que poderiam completar o vazio que há em cada um. Pelo caminho encontram vários seres que parecem completá-los. Mas esses complementos, com o tempo, se revelam apenas ilusões.

O que Shel Silverstein expõe, numa espécie de parábola, é que cada um precisa andar com as próprias pernas para se sentir pleno. E caminhar pelas próprias pernas significa poder andar ao lado de outro alguém que também caminha com as próprias pernas.

Por meio da simplicidade de um círculo e um triângulo, os dois livros revelam que não é apenas juntando partes que a gente pode viver a experiência da plenitude. O desafio estaria em cada parte se tornar, ao longo da vida, uma plenitude. Então a felicidade assumiria a forma de plenitudes caminhando lado a lado.

Serviço:
"A Parte Que Falta"
Autor – Shel Silverstein
Editora – Cosac Naify
Tradução – Alípio Correia de Franca Neto
Páginas – 112 (capa dura)
Quanto – R$ 45

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